Caso clínico · Pág. 09 de 15
A marcha de dez anos
O idoso eutrófico que jura estar passando fome depois de dois cafés da manhã é a imagem inesquecível da amnésia de fatos recentes. Ao longo de ~10 anos, a ordem das perdas é uma pista diagnóstica — e onde a prova esconde a pegadinha.
O hipocampo cai primeiro
O hipocampo cai primeiro. A doença de Alzheimer tradicionalmente cursa por cerca de dez anos — formas mais agressivas aceleram, formas mais brandas se arrastam, mas a média é essa. Como o hipocampo morre primeiro, a amnésia é o que se estabelece mais cedo, e o problema é com a memória para fatos recentes. O paciente lembra com riqueza de detalhes como eram as coisas na era Getúlio Vargas ou a cor da casa em que morava aos cinco anos, mas não lembra o que comeu no café da manhã. É o idoso que se queixa “Doutor, estou passando fome, não me dão comida”, estando eutrófico e bem cuidado — enquanto a filha revela que ele tomou dois cafés da manhã, comeu biscoito com requeijão e almoçou duas vezes. Ele não mente: não tem memória para o fato recente porque o hipocampo já se foi.
A marcha das fases (~10 anos)
Os domínios que se somam
Os domínios que se somam. Conforme os neurônios morrem em outras regiões, o paciente agrega outros distúrbios cognitivos. Começa a perder o raciocínio lógico, fica confuso e mais agressivo; pode perder a capacidade de se comunicar (afasia) e a destreza para gestos aprendidos (apraxia — não afina mais o instrumento, não faz mais corte e costura). Pode fazer agnosia, a perda da capacidade de reconhecimento, em particular de rostos: é o paciente internado que não reconhece o próprio netinho entrando na enfermaria — uma fase muito triste. Em estágios avançados, soma desorientação grave, agressividade e conflito com o cuidador: não lembra de mais nada, não reconhece rostos, não se comunica e não entende o que lhe falam.
A pegadinha da desorientação tardia
A pegadinha da desorientação tardia. Aqui mora o alerta de prova: a desorientação grave é tardia no Alzheimer. Se o enunciado abre o quadro com desorientação grave (ou, como se verá adiante, com alucinação precoce), não é Alzheimer — deve ser outra coisa. A ordem das perdas é uma pista diagnóstica, não um detalhe.
Card-alerta
Desorientação grave PRECOCE ≠ Alzheimer. No Alzheimer ela é tardia; abertura com desorientação/alucinação aponta para outra etiologia.
O fim: incontinência, imobilidade, óbito
O fim: incontinência, imobilidade, óbito. Em seguida, o paciente começa a fazer incontinência. Depois, imobilidade — e a imobilidade é a principal causa de óbito no Alzheimer. Acamado, ele faz tromboembolismo venoso (TVP e TEP) e passa a ter risco de broncoaspiração, com pneumonite química ou pneumonia aspirativa — um quadro infeccioso de fato, que costuma ser o evento terminal.
Pegadinha de prova
Desorientação grave PRECOCE ≠ Alzheimer. No Alzheimer ela é tardia; abertura com desorientação/alucinação aponta para outra etiologia.
O que a banca quer
Cobrar a ordem das fases: amnésia recente primeiro; afasia/apraxia/agnosia no meio; desorientação, incontinência e imobilidade no fim. Inverter a ordem é a marca de outra demência.
Quiz
Conexão
Se o diagnóstico é de exclusão, cabe uma pergunta incômoda: para que servem, então, PET, SPECT e os biomarcadores — e o que cada um mostra cedo ou tarde?