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A espinha: três passos

A investigação da demência não é improviso — é uma sequência fixa. Caracterizar o déficit, afastar os falseadores, excluir as causas reversíveis; só depois, por exclusão, nomeia-se a etiologia degenerativa.

O mapa dos três passos

O mapa dos três passos. A investigação da demência não é improviso — é uma sequência fixa. Passo 1: caracterizar a perda cognitiva com instrumentos objetivos — o mini-mental, o desenho do relógio e o teste de fluência verbal. Passo 2: formalizado o comprometimento, afastar os falseadores — situações que parecem demência mas não são, as pseudodemências. Passo 3: excluir as causas reversíveis de demência. Só depois de percorrer os três é que se chega, por exclusão, à etiologia degenerativa. Guardar essa espinha é guardar o roteiro inteiro da investigação.

A espinha da investigação

Passo 1 Caracterizar o déficit (MEEM, relógio, fluência)
Passo 2 Afastar os falseadores (pseudodemências)
Passo 3 Excluir as causas reversíveis
Etiologia Degenerativa, por exclusão (~90% Alzheimer)

Passo 1 detalhado: como se caracteriza o déficit

Passo 1 detalhado — como se caracteriza o déficit. O mini-mental (MEEM) é o rastreio global, e aqui mora um ponto que a prova adora: ele se lê por escolaridade. Não existe um corte único de “normal”. Os pontos de corte da Academia Brasileira de Neurologia (Brucki, 2003) variam: analfabeto 20 · 1–4 anos de estudo 25 · 5–8 anos 26,5 · 9–11 anos 28 · mais de 11 anos 29. É exatamente por isso que os 16/30 de Dona Helena são gravíssimos: sendo professora (mais de 11 anos de estudo), o corte dela é ~29, e 16 está muito abaixo de qualquer limite — déficit inequívoco. O desenho do relógio avalia função executiva e visuoespacial; a fluência verbal (por exemplo, nomear animais em um minuto) avalia funções executivas e de linguagem, também com corte ajustado pela escolaridade. Três instrumentos simples que, juntos, objetivam o que a queixa só sugere.

Cortes do MEEM por escolaridade — Brucki 2003 (ABN)

Analfabeto~20
1–4 anos de estudo~25
5–8 anos~26,5
9–11 anos~28
Mais de 11 anos~29

MEEM se lê por escolaridade; é RASTREIO   Dona Helena: 16/30 (corte ~29) = gravíssimo

O desenho do relógio avalia função executiva e visuoespacial. Desorganização sinaliza déficit — parte do passo 1, junto do mini-mental e da fluência.
Registro real do teste do desenho do relógio aplicado, usado na caracterização objetiva do déficit cognitivo.
Desenho do relógio aplicado — registro real que ancora o passo 1, a caracterização objetiva do déficit. Figura de artigo open access (PMC7704614), CC BY 4.0 · fonte

Regra de ouro

O MEEM sempre se corrige pela escolaridade. Um mesmo escore é normal para um analfabeto e patológico para um universitário. Ignorar isso é o erro que transforma um déficit grave em “dentro da normalidade”.

Quiz

1. Professora universitária aposentada obtém MEEM 24/30. A interpretação correta é:

2. Qual a sequência correta da investigação de uma síndrome demencial?

Conexão

O passo 2 é o primeiro filtro a ser aplicado — e alguns dos “demenciados” que ele pega melhoram completamente quando se remove a causa certa.