Achado / pegadinha · Pág. 02 de 15

Demência não é só memória

O violinista que perdeu a destreza mas tem memória perfeita quebra de imediato a equação “demência = perder memória” — a concepção errada mais comum, e o gancho ideal para os domínios cognitivos.

Cognição é mais que memória

Cognição é mais que memória. Síndrome demencial, por definição, é ter comprometimento cognitivo — e cognição é um conjunto de funções, não uma só. A memória é a que mais se lembra e a queixa mais frequente do paciente, por isso rouba a cena. Mas é perfeitamente possível ter a memória completamente preservada e ainda assim carregar comprometimento de outra função cognitiva. Fixar isso desde o começo evita metade dos erros: o paciente que “lembra de tudo” não está, por isso, livre de demência.

Os domínios que caem

Os domínios que caem. A linguagem é uma função cognitiva: o paciente pode não conseguir mais conversar nem entender o que fala — é a afasia. A praxia é a capacidade de executar gestos aprendidos; perdê-la é a apraxia — muitas vezes com a memória intacta. O retrato clínico é marcante: quem afinava um violino desde criança não afina mais; quem sempre fez corte e costura recebe o fio e a agulha na mão e não consegue mais executar. A destreza foi embora, a lembrança de quem ele é ficou. Somem-se a esses a amnésia (memória) e, mais adiante na doença, a agnosia (reconhecimento). São domínios independentes: cada um pode ruir sozinho.

Quatro domínios, quatro déficits: amnésia (memória), afasia (linguagem), apraxia (gestos aprendidos), agnosia (reconhecimento). A demência pode começar por qualquer um — inclusive com memória intacta.
Mapa cortical com áreas funcionais rotuladas — linguagem, praxia e memória — em vista lateral do hemisfério cerebral.
Áreas funcionais do córtex: linguagem (Broca/Wernicke), praxia (parietal) e memória (temporal medial) — cada domínio numa região. Cortex functional areas, Wikimedia Commons · fonte

O par de nomes (DSM-5-TR)

O par de nomes. Vale registrar a nomenclatura moderna, que a prova pode cobrar: o que se chama classicamente de demência corresponde, no DSM-5-TR, ao Transtorno Neurocognitivo Maior; o transtorno cognitivo leve equivale ao Transtorno Neurocognitivo Leve. Os termos clássicos seguem plenamente aceitos e serão os usados como fio condutor — mas reconhecer o par evita ser pego por uma questão que troca o rótulo.

Par terminológico DSM-5-TR

Termo clássico

  • Demência
  • Transtorno cognitivo leve

DSM-5-TR

  • Transtorno Neurocognitivo Maior
  • Transtorno Neurocognitivo Leve

Os termos clássicos seguem como fio condutor; reconhecer o par evita cair em questão que troca o rótulo.

Não confunda

Amnésia (perde memória) ≠ afasia (perde linguagem) ≠ apraxia (perde a execução de gestos) ≠ agnosia (perde o reconhecimento). Quatro domínios, quatro déficits — e demência pode começar por qualquer um.

O que a banca quer

Testar se o aluno reduz demência a “esquecer”. Enunciado com memória preservada + afasia/apraxia progressiva ainda é síndrome demencial.

Quiz

1. Paciente de 70 anos, ex-costureira, com memória preservada, mas que há meses não consegue mais manusear linha e agulha nem executar gestos que dominava; avaliação mostra declínio cognitivo progressivo. O domínio comprometido é:

2. (V/F) Um paciente com memória completamente preservada não pode ter síndrome demencial.

Conexão

Saber que qualquer domínio pode cair ainda não basta: falta o que separa uma demência de um susto passageiro — e é aí que entram o tempo e a funcionalidade.