Caso clínico · porta de emergência

O caso que já aponta primária

Mulher de 30 anos, cefaleia há 5 horas, forte e latejante em frontotemporal esquerda, com náusea, vômito e dormência prévia em membros superiores. Exame neurológico sem anormalidades. Como enquadrar?

CasoMulher · 30 anos · posto de saúde

Mulher de 30 anos chega ao posto com cefaleia há cerca de 5 horas. Nega medicamento prévio para a dor atual. Dor forte, latejante, em região frontotemporal esquerda. Há náusea e houve vômito; a náusea permanece.

A dor começou logo após o almoço e foi precedida por dormência em membros superiores. Exame físico e neurológico: sem anormalidades.

Alarme limpo, exame normal

Até aqui, sem sinais de alarme. Exame físico e neurológico normais apontam para cefaleia primária — o funil de triagem já afastou o ramo “investigar secundária agora”.

O funil é negativo quando não há red flag (idade > 50, déficit focal, alteração de consciência, início súbito/relâmpago, piora progressiva, pós-trauma, febre, imunossupressão, neoplasia, gestação, cefaleia nova na gravidez). Sem nenhum desses marcadores, o raciocínio entra no catálogo das primárias.

Crises semelhantes + história familiar

Há eventos semelhantes no passado (crises que se parecem entre si). A mãe relata muita dor de cabeça na juventude, principalmente na menstruação — componente de história familiar.

Recorrência com fenótipo estável + HF positiva = forte componente de enxaqueca/migrânea. Não se trata ainda de diagnóstico fechado, mas o nome sindrômico já se antecipa.

Nome sindrômico: enxaqueca

Com clínica + exame normal + recorrência + HF, o diagnóstico sindrômico se antecipa. O que se detalha a seguir são as principais primárias — e, no fecho, uma secundária “diferentona” (abuso de medicamento). A primeira primária a abrir é a enxaqueca (migrânea): quadro florido, exatamente o do caso.

Mantra de série: alarme limpo — agora case a clínica com a droga certa.

Por que importa na prática

Errar o nome da dor com exame limpo custa menos do que errar o alarme — mas acertar o nome abre o arsenal certo (abortivo, profilaxia) sem “analgésico eterno”. A maior parte do raciocínio de enxaqueca começa sem exame de imagem, desde que o alarme esteja limpo.

Recorte do módulo A da diretriz VA/DoD para adultos com cefaleia: história e exame, decisão sobre urgência ou red flags, encaminhamento ao pronto atendimento e avaliação de cefaleia secundária.
VA/DoD 2023, módulo A: urgência e red flags são avaliadas antes de nomear a cefaleia primária.

U.S. Department of Veterans Affairs and U.S. Department of Defense. VA/DoD Clinical Practice Guideline for the Management of Headache — Pocket Card, Module A, September 2023. Recorte da página 1 — U.S. Government work · fonte

Alarme limpo antes da clínica

A entrada do funil: se há red flag (sinal de alarme), a rota é investigar secundária; sem red flag, a primária entra no leque. O caso apresentado passa pelo ramo limpo.

Caso-Porta #2: Síntese Clínica de Cefaleia na Emergência - Enxaqueca com Aura Sensitiva Ilustração médica interativa apresentando a triagem por funil de alarme e síntese diagnóstica para mulher de 30 anos com dor latejante frontotemporal esquerda há 5h, aura sensitiva prévia e exame neurológico normal. SÍNTESE CLÍNICA DA CEFALEIA NA EMERGÊNCIA · CASO-PORTA #2 Funil de alarme limpo (SNNOOP -) + Aura sensitiva prévia + Dor pulsátil 5h e recorrência = Migrânea com Aura (Cefaleia Primária) Tudo Visível 1. Funil Alarme 2. Crise/Aura 3. Síntese 1. TRIAGEM: FUNIL DE ALARME (SNNOOP) Investigação de sinais de alerta para cefaleia secundária Febre / Sistêmico (-) Déficit Focal Neuro (-) Início Súbito Sthunder (-) Idade > 50a (-) Neoplasia / Papiledema (-) ✓ ZERO RED FLAGS (ALARME LIMPO) EXAME FÍSICO E NEUROLÓGICO Sinais Vitais: Normotensa, Afebril Pares Cranianos: I a XII preservados Força / Sensib.: Grau 5/5, sem déficits Sinais Meníngeos: Kernig e Brudzinski (-) EXAME NEUROLÓGICO COMPLETAMENTE NORMAL DIRETRIZ DE CONDUTA PS: • Alarme limpo + exame normal = NÃO solicitar TC/RM de crânio de rotina. • Evita exames desnecessários e foca no tratamento abortivo profilático correto. 2. EVOLUÇÃO DA CRISE & AURA SENSITIVA Linha do tempo: Fenômeno de aura precede dor por ~30-60 min Dor Frontotemporal E Pulsátil / Latejante (8-9/10) AURA SENSITIVA Parestesia / Dormência MMSS Reversível < 60 min EVOLUÇÃO TEMPORAL DAS FASES FASE AURA -60 a 0 min DOR LATEJANTE (INSTALADA) Duração Atual: ~5 horas AGORA: 5h SINTOMAS & CARACTERÍSTICAS DA CRISE Caráter Latejante Pulsátil no lado E Intensidade Forte Escala 8 a 9 em 10 Náuseas / Vômitos Presentes na crise Aura Sensitiva Dormência prévia MMSS DETALHE CLÍNICO DA FASE A aura sensitiva (parestesia em membros superiores) é um fenômeno cortical depressivo alastrante que precede a fase álgica vascular migranosa. 3. PERFIL & SÍNTESE DIAGNÓSTICA Ancoragem do caso-porta e conclusão final DADOS DEMOGRÁFICOS E HISTÓRIA Mulher, 30 anos Crises Prévias (+) História Familiar: Positiva (Mãe) Gatilho Catamenial: Relação Perimenstrual PADRÃO RECORRENTE E FAMILIAR TÍPICO MIGRÂNEA COM AURA SENSITIVA SÍNTESE DOS DADOS (FECHAMENTO): 1. Funil SNNOOP Limpo (-) Exame físico e neuro normal. Cefaleia secundária descartada. 2. Aura Sensitiva Típica Parestesia reversível em MMSS por 30-60 min antes da dor. 3. Fenótipo Migranoso Florido 30a, latejante, 5h, hemicrania E, náuseas, padrão catamenial. CONDUTA TERAPÊUTICA PS: • Prescrever abortivo de crise (ex: Triptano / AINE). • Orientar diário de cefaleia e consulta ambulatorial. • Tranquilizar a paciente: Quadro benigno primário. Título Conteúdo do tooltip

Quiz

Q1. Mulher 30 anos, cefaleia latejante unilateral há 5 h, com náusea, dormência prévia em membros superiores, exame neurológico normal, crises semelhantes no passado e HF materna com padrão menstrual. Melhor enquadramento imediato?

Q2. Qual elemento do caso mais reforça primária recorrente (e não evento isolado secundário)?