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Fragilidade: o idoso-porcelana

A fragilidade se ensina por contraste — o idoso robusto × o idoso-porcelana. Parece inteiro, mas quebra ao menor impacto: é a raiz que a avaliação inteira estava tentando pescar antes que os I's se acumulassem.

A porcelana: a síndrome que está por baixo de todas

A porcelana. Um idoso frágil é como uma porcelana: parece inteiro, mas quebra ao menor impacto. A fragilidade é a síndrome que está por baixo de todas as outras — é a raiz que a avaliação inteira estava tentando pescar antes que os I's se acumulassem.

O mecanismo: sarcopenia (por que o idoso frágil perde músculo)

O mecanismo — sarcopenia. O idoso fica frágil porque perde musculatura — faz sarcopenia — por dois motivos somados: baixa ingesta calórica e proteica, e inatividade. É o mesmo processo de quem passa muito tempo sem exercício e perde músculo, só que agravado pela fisiologia do envelhecimento. Menos músculo significa menos força, menos reserva, mais quedas — o corpo da porcelana.

Menos músculo, menos força, menos reserva: o corpo da porcelana. É a sarcopenia que sustenta a fragilidade.

Os cinco critérios de Fried

Os cinco critérios de Fried. A fragilidade se crava por critérios objetivos (fenótipo de Fried):

  • Marcha lentificada — percebida quando o idoso se levanta devagar e caminha devagar até o médico.
  • Redução da força de preensão palmar — medida idealmente com dinamômetro; na falta dele, pedindo que aperte a mão do examinador.
  • Fadiga autorreferida — o paciente relata estar cansado o tempo inteiro.
  • Baixo gasto calórico semanal — avaliado perguntando o que ele faz ao longo de uma semana, corrigido por gênero e idade. Atenção à pegadinha clássica: a prova troca “semanal” por “diário”; “baixo gasto calórico diário” não configura o critério.
  • Perda de peso de pelo menos 5% no último ano. (A diferença entre “≥5%” e “>5%” é maldadezinha que não costuma decidir a questão.) Por isso, ao final da consulta, é obrigatório pesar o idoso — perdendo músculo, ele perde peso.

O mnemônico FRAIL — e a pegadinha do “semanal, não diário”

O mnemônico FRAIL. A prova também cobra a escala FRAIL, praticamente idêntica aos critérios clássicos, brincando com a palavra “frail” (frágil, em inglês):

  • F — Fatigue: a fadiga autorreferida.
  • R — Resistance: dificuldade para subir escada (ligada ao baixo gasto calórico).
  • A — Ambulation: a deambulação, a marcha avaliada quando o idoso se levanta e caminha.
  • I — Illness: marca o critério quem tem cinco ou mais doenças — não precisa decorar quais; são as típicas do idoso (hipertensão, insuficiência cardíaca, pneumopatias como asma e DPOC, diabetes, neoplasia).
  • L — Loss: perda de peso de pelo menos 5% do peso corporal.

FRAIL — 5 letras, 5 critérios

FFatigue — fadiga autorreferida
RResistance — dificuldade de subir escada
AAmbulation — marcha lentificada
IIllness — ≥5 doenças
LLoss — perda de peso ≥5%

Classificação: 0 = robusto · 1–2 = pré-frágil · ≥3 = frágil   Pegadinha: gasto SEMANAL, não diário

Figura-síntese da fragilidade. O idoso-porcelana, a via sarcopenia → perda de força → queda, sobreposta ao grid FRAIL com a classificação robusto/pré-frágil/frágil. Clique em cada critério para o achado.

A classificação: robusto, pré-frágil, frágil

A classificação. A contagem é a mesma para os critérios clássicos e para o FRAIL: nenhum critério = robusto; um ou dois = pré-frágil; pelo menos três = frágil. Três é o número que crava a fragilidade.

Dona Helena é frágil — e o que fazer com o idoso frágil

Dona Helena. Agora feche o caso. Ela tem perda de peso significativa (um critério), diminuição de força (outro) e fadiga autorreferida para as tarefas domésticas que a tornou sedentária (o terceiro). Três critérios: Dona Helena tem síndrome de fragilidade.

O que fazer com o idoso frágil. Fragilidade não é sentença — é estabilizável e, às vezes, reversível. A intervenção de maior evidência é exercício resistido e multicomponente (força, equilíbrio, aeróbico). Soma-se suporte proteico-calórico (cerca de 1,0-1,2 g/kg/dia de proteína, para tratar a sarcopenia), correção de vitamina D quando deficiente, correção de déficits sensoriais (visão e audição) e — de novo — revisão da polifarmácia. Para estratificar rapidamente à beira do leito, também se usa a Clinical Frailty Scale (Rockwood, 1 a 9), muito cobrada em enfermaria e UTI.

Dinamômetro de preensão palmar sendo usado para medir a força de um paciente.
Força de preensão — um dos cinco critérios de Fried, medido no dinamômetro. Ashashyou, Hand dynamometer, Wikimedia Commons, CC0 / domínio público · fonte

Pegadinha de prova

“Baixo gasto calórico diário” está errado — o critério é semanal. É a troca de palavra mais explorada do tema.

Quiz

1. Idosa com perda de peso de 6% no último ano, redução de força de preensão e fadiga autorreferida constante. Como classificá-la?

2. Sobre o critério de gasto calórico na fragilidade, é correto afirmar:

3. (Completar lacuna) Na classificação de fragilidade, ______ critério(s) = robusto; ______ critérios = pré-frágil; ______ ou mais = frágil.

Gabarito: nenhum (0) / um a dois (1-2) / três (≥3). Vale igual para Fried e FRAIL. Por que se erra: troca-se o corte de “três” por “dois”, inflando o diagnóstico de fragilidade.

Conexão

Identificada a fragilidade, o caso vira a chave para o segundo eixo — a prevenção; e ela começa por decidir o que vacinar neste idoso.