Erro comum desmontado · Pág. 05 de 12
Idoso saudável é idoso funcional
Quase todo aluno acredita que idoso saudável é o sem comorbidade. Desmontar esse mito de frente é o que ancora o domínio mais importante da geriatria — a capacidade funcional — e o par Katz × Lawton.
O mito desmontado: idoso saudável não é idoso sem comorbidade
O mito. Muitos alunos acham que idoso saudável é o idoso com pressão 120/80, glicemia no alvo e nenhuma comorbidade. Está errado — e esse é o conceito mais importante da geriatria. Entre um idoso sem doença nenhuma, mas acamado, e um idoso com hipertensão e diabetes que continua fazendo a própria vida, quem está saudável é o segundo. Idoso saudável não é idoso sem comorbidade — é idoso funcional. Não adianta pressão perfeita se o paciente não sai da cama; e há idoso com 120/80 que faz hipotensão postural, cai, bate a cabeça e tem problema justamente por ser “bem controlado”. Não se olha o idoso com o olhar frio da clínica médica.
Capacidade funcional, o domínio mais importante — e as duas escalas
As duas escalas. A capacidade funcional é o domínio que realmente traduz um idoso saudável, e é medida por duas escalas complementares: as atividades básicas de vida diária (ABVD), pela escala de Katz, e as atividades instrumentais de vida diária (AIVD), pela escala de Lawton.
Katz (ABVD): o autocuidado
Katz — o autocuidado. A escala de Katz avalia o mais básico, aquilo que o paciente precisa para cuidar do próprio corpo: tomar banho sozinho, preservar a continência, conseguir se vestir e conseguir comer. É o núcleo da autonomia física.
Lawton (AIVD): a interação com o meio — e o que se perde primeiro
Lawton — a interação com o meio. A escala de Lawton avalia tarefas mais complexas, de interação com o ambiente — e são justamente as que o idoso perde primeiro: usar telefone (telefonar, mandar mensagem), fazer compras e cozinhar. Fazer compras é tarefa elaborada — montar a lista, deslocar-se ao mercado, escolher itens, lidar com dinheiro. Cozinhar é complexo — separar ingredientes, pesar alimentos, seguir um passo a passo. Por serem sofisticadas, as AIVD despencam antes das ABVD. Resumo do par: Lawton = interação e atividades complexas; Katz = autocuidado.
| Katz — autocuidado (ABVD) | Lawton — interação (AIVD) |
|---|---|
| Tomar banho sozinho | Usar telefone |
| Preservar a continência | Fazer compras |
| Vestir-se | Cozinhar |
| Comer (cortar e levar à boca) | Lidar com dinheiro |
Lawton perde-se PRIMEIRO comer ≠ cozinhar Idoso saudável = FUNCIONAL
A pegadinha: comer (Katz) ≠ cozinhar (Lawton)
A pegadinha. Na escala de Katz, “comer” significa cortar o próprio alimento e levá-lo à boca — não é cozinhar. Cozinhar pertence a Lawton. A prova adora esse deslize: quem lê “comer” e pensa “cozinha” erra a classificação do domínio.
Aplicando: o enunciado-modelo de Dona Maria
Aplicando. Enunciado-modelo clássico: “Dona Maria, professora de matemática, mini-exame de 25 (baixo para o nível dela), escala de depressão geriátrica com 10 pontos (risco de depressão), já perdeu as atividades instrumentais de Lawton, mas preserva as básicas de Katz.” Repare como o caso força você a encaixar o problema em domínios: cognição comprometida (25 é baixo para uma professora), humor em risco (10 na Yesavage), função instrumental perdida (Lawton) com autocuidado preservado (Katz). É assim que a banca cobra — obrigando a mapear cada achado ao seu domínio.
Caso Dona Maria — mapeamento por domínio
O que diferencia o aluno avançado
Reconhecer que “25 no mini-exame” só é alterado porque Dona Maria é professora — o corte é ajustado à escolaridade. O aluno mediano lê 25 como normal.
Quiz
3. (Completar lacuna) A escala de ______ mede autocuidado (ABVD) e a escala de ______ mede atividades instrumentais (AIVD), que se perdem ______.
Gabarito: Katz / Lawton / primeiro. As AIVD (Lawton) são as primeiras a cair porque são as mais complexas. Por que se erra: inverte-se o par ou esquece-se que Lawton despenca antes — dado que a prova usa para localizar o estágio do declínio.
Conexão
Falta o quarto domínio — o que tenta responder, ainda no consultório, à pergunta que abriu tudo: qual idoso vai cair?