Página 13 · Parte A · Paredes
Medir a bacia com régua não decide o parto
OR 2,17. Mulheres submetidas à pelvimetria radiológica tiveram mais que o dobro da chance de terminar em cesárea — sem nenhum benefício detectado para o bebê. Cinco ensaios, 1.159 mulheres.
Pelvimetria clínica: inspeção sequencial dos três aros pelvinos em cinco alvos anatômicos.
Medir a bacia: três vias, três destinos diferentes
Existem três maneiras de medir a bacia, e cada uma teve um destino clínico diferente. A pelvimetria externa — a régua aplicada sobre a pele — foi abandonada: não prediz as dimensões internas, e o que o examinador mede por fora não corresponde ao que o feto enfrenta por dentro. A pelvimetria interna — o exame ao toque — permanece: ainda é ensinada, cobrada em prova e faz parte do exame obstétrico. A radiopelvimetria — raio-X, tomografia ou ressonância — foi a que prometia a medida exata, e é justamente a que aumenta a cesárea sem ganho perinatal.
O exame que ainda se faz, passo a passo
A pelvimetria clínica interna se faz em cinco perguntas, em ordem, do alto para baixo — entrada, meio e saída:
- Alcança o promontório? — se sim, o conjugado diagonal está encurtado e a entrada pode estar contrainda.
- Espinhas proeminentes? — espinhas pontiagudas estreitam o estreito médio e podem parar a descida.
- Concavidade sacral preservada? — sacro curvo e profundo dá espaço para a rotação interna; sacro plano reduz o diâmetro ântero-posterior.
- Ângulo subpubiano ≥ 90°? — arco amplo acomoda a apresentação; arco agudo estreita a saída.
- Bituberoso comporta o punho? — o punho fechado do examinador (≈ 8,5 cm) deve caber entre as tuberosidades isquiáticas.
São cinco perguntas rápidas, e o exame continua sendo cobrado — mas o seu valor preditivo para desproporção é baixo. Ele descreve a bacia; raramente decide o parto.
O raio-X: mais cesárea, sem ganho para o bebê
A revisão sistemática Cochrane reuniu cinco ensaios e 1.159 mulheres. O resultado foi categórico: OR 2,17 (IC 95% 1,63–2,88) para cesárea — mais que o dobro da chance — sem nenhum benefício perinatal detectado. Não há evidência que sustente a pelvimetria radiológica em apresentação cefálica, e as diretrizes nacionais não a mencionam. A medida mais precisa não gerou a melhor decisão; gerou mais cesárea.
A melhor pelvimetria é a prova de trabalho de parto
Medir com régua não decide o parto. A pelvimetria clínica continua no exame, mas o seu valor preditivo para desproporção é baixo. A melhor pelvimetria é a prova de trabalho de parto: quem responde se cabe é a descida. Se a apresentação desce e rota com contrações eficazes, a bacia é adequada — por mais que a régua tenha sugerido o contrário. Se não desce, a prova encerra a questão.
"Quanto mais precisa a medida, melhor a decisão." — Precisão de medida e poder preditivo são coisas diferentes. A radiopelvimetria mede com exatidão milimétrica e, ainda assim, dobra a cesárea sem ganho para o bebê. Uma medida exata de uma variável que não prediz o desfecho não melhora a decisão — só a torna mais confiante na direção errada.
Quiz — Página 13
Q1. Qual é o principal argumento contra a pelvimetria radiológica em apresentação cefálica?
Gabarito B. A revisão sistemática (5 ensaios, 1.159 mulheres) mostrou OR 2,17 para cesárea sem nenhum benefício perinatal — o problema não é a radiação nem o custo, é que a medida exata não gera melhor decisão.
Q2. Sobre as três vias de pelvimetria, qual afirmação está correta?
Gabarito B. A pelvimetria interna continua sendo ensinada, cobrada e faz parte do exame obstétrico — mas com valor preditivo baixo para desproporção. A externa foi abandonada e a radiológica aumenta a cesárea.