Página 13 · Prolapsos / distopia genital

A Lurdinha decodificada — e a ponte para o próximo caso

GinecologiaSete números legíveisAnterior isoladoFronteira III↔IVSem histerectomia

O que os sete números da Lurdinha entregam

  • traduzir os sete números da Lurdinha;
  • cravar o compartimento;
  • definir a conduta dela;
  • fechar a distopia e abrir o próximo caso.
  • Aa+3
  • Ba+5
  • Ap−3
  • Bp−3
  • C−6
  • D−7
  • CVT7

Os sete números, agora legíveis

De volta ao enigma que abriu tudo: Aa +3, Ba +5, Ap −3, Bp −3, C −6, D −7, CVT 7. Aplicando o que a régua ensinou, cada número fala. Aa +3 e Ba +5 → a parede anterior está 3 e 5 cm para fora da carúncula himenal = cistocele acentuada. Ap −3 e Bp −3 → a parede posterior está em −3 = normal, sem retocele. C −6 → o colo/apical está bem para dentro = apical suportado (sem prolapso uterino). D −7 → tem ponto D = tem colo (coerente com uma paciente G5P5, útero presente). E D − C = −7 − (−6) = −1 → o módulo é 1 cm < 4 → não é alongamento, o colo dela é normal.

O compartimento: anterior isolado, apical e posterior poupados

Somando a leitura: o que desceu na Lurdinha está só na frente. A parede anterior acentuadamente para fora, a posterior normal, o ápice suportado, o colo de comprimento normal. O diagnóstico é prolapso de parede vaginal anterior acentuado (cistocele avançada), com apical e posterior poupados — exatamente a primeira leitura que o princípio do sinal já dava na abertura, agora confirmada ponto a ponto.

O estágio na fronteira III↔IV — mas quem decide a conduta é o compartimento

Pelo cálculo da régua: o ponto mais distal é Ba +5, e o corte do estágio 4 é CVT − 2 = 7 − 2 = 5. Como +5 ≥ 5, cai no estágio 4 — exatamente na borda III↔IV (o ponto de fronteira pertence ao IV pela regra estrita). Vale a honestidade: é um prolapso anterior isolado com ápice alto (C −6), não uma procidência total — há tensão entre a regra numérica (que crava IV pelo ponto mais distal) e o gestalt clínico. Para banca, vale a regra numérica → estágio 4 (ou “III/IV na fronteira”). Mas o ponto que não muda: quem decide a conduta é o compartimento (anterior isolado), não o número exato do estágio.

A conduta da Lurdinha: colpoperineoplastia anterior, sem histerectomia

Cravado o compartimento, a conduta é direta: colporrafia / colpoperineoplastia anterior + correção da fáscia pubovesicocervical, mais a correção do períneo (a rotura de 2º grau que ficou pendente desde o começo). E o que não se faz: como o apical está bom (C −6, bem suportado), não precisa de histerectomia nem de sacrocolpopexia — corrige-se apenas o compartimento que cedeu. Retirar o útero ou fixar a cúpula numa paciente cujo ápice está no lugar seria operar o que não está doente. A Lurdinha sai resolvida: cistocele avançada tratada pela frente, períneo refeito, útero preservado.

A distopia é objetiva — e a ponte para o próximo caso

O fecho amarra a lente do bloco: na distopia, diagnosticou, trata — a conduta é direta, sai por compartimento. O que diferencia na prova não é a decisão terapêutica, é a quantificação (POP-Q), a régua que gradua e escolhe o degrau. Resolvida a Lurdinha, abre-se um novo caso — a Rafaela, uma paciente distinta, jovem, com sangramento — que leva a discussão para o ciclo menstrual. É outra história, outro fio; a Lurdinha, essa, fecha aqui, decodificada por inteiro.

Caso 1 · dona Lurdinha — resolvida

Corredor fechado
Sete números
Aa +3 · Ba +5 · Ap −3 · Bp −3 · C −6 · D −7 · CVT 7
Leitura
anterior acentuado para fora · posterior/apical poupados · |D − C| = 1, não é alongamento
Diagnóstico
prolapso de parede vaginal anterior acentuado (cistocele avançada) · estágio 4 na fronteira III↔IV, mas a conduta é pelo compartimento anterior isolado
Conduta
colpoperineoplastia anterior + fáscia pubovesicocervical + correção do períneo — sem histerectomia nem sacrocolpopexia
estado resolvido
Corte Sagital de Prolapso Anterior Isolado (Cistocele) Corte sagital mediano da pelve feminina mostrando prolapso vaginal anterior isolado. A parede vaginal anterior e a bexiga estão exteriorizadas abaixo do plano do introito, enquanto o útero, colo (ápice) e parede posterior estão preservados e no lugar. Laterality: n/a. MAPA CLÍNICO: PROLAPSO DE COMPARTIMENTO ANTERIOR ISOLADO Conclusão diagnóstica: cistocele avançada com ápice e parede posterior normais. Indica tratamento anterior isolado, preservando o útero. Plano Himenal (0) CISTOCELE (Ba +5) ÁPICE SUPORTADO (C −6) POSTERIOR NORMAL (−3) ANÁLISE DE COMPARTIMENTO Caso Lurdinha O prolapso genital da paciente deve ser compreendido de forma segmentada. Como ler: Toque ou passe o mouse nos marcadores pulsantes do corte anatomico para ver os compartimentos anterior, apical e posterior de Lurdinha. A lógica: Entender por que a integridade do suporte apical permite preservar o utero. COMPARTIMENTO ANTERIOR (Ba +5) Cistocele Avançada A parede vaginal anterior e a base da bexiga desceram acentuadamente, projetando-se 5 cm alem da linha do himen (Ba +5). Conduta Recomendada: Colpoperineoplastia Anterior Justificativa Cirurgica: Correcao focada apenas no defeito focial anterior. Realiza-se a plicatura da fascia pubovesical lesada para reerguer a bexiga. COMPARTIMENTO APICAL (C −6) Ápice Suportado O colo uterino permanece em posicao normal alta (C −6), suspendo pelos ligamentos cardinais e uterossacros integros. Conduta Recomendada: Preservação Uterina Justificativa Cirurgica: O suporte do apice esta intacto. O colo nao apresenta alongamento hipertrofico (|D−C| = 1). Retirar o utero seria um erro de conduta. COMPARTIMENTO POSTERIOR (Bp −3) Posterior Normal A parede vaginal posterior e a fascia retovaginal mantem a estabilidade fisiologica completa (Bp −3). Reto sem abaulamentos vaginais. Conduta Recomendada: Observação Conservadora Justificativa Cirurgica: Inexistencia de retocele. Nao realizar colpoperineoplastia posterior evita riscos desnecessarios de dor cronica e dispareunia no pos-operatorio. Apresentando mapa de prolapso de compartimento. Use tab para navegar.
A Lurdinha em corteO prolapso específico dela por desenho: a parede anterior acentuadamente para fora (cistocele), o ápice e a parede posterior no lugar (poupados), o colo de comprimento normal. É o decode traduzido em anatomia.Esquema · o decode da Lurdinha
Exame demonstrando cistocele — parede vaginal anterior exteriorizada pelo introito.
Cistocele de parede anterior: o achado que fecha o caso

Exame de prolapso de parede vaginal anterior (cistocele) exteriorizada pelo introito — o achado que os números Aa +3 / Ba +5 da Lurdinha descrevem. Nesta foto coexiste, atrás, uma fístula retovestibular (outro caso) — o cueing e a leitura ficam só na parede anterior.

Grechukhina O et al. Case Reports in Obstetrics and Gynecology. 2014;2014:578048 (Fig. 2), via PubMed Central. Licenciado sob CC BY. Fonte: PMC.

real de achado/síntese — cistocele anterior (fístula posterior coexiste; leitura só na anterior)

Quiz — fixação

Dona Lurdinha, 60a, G5P5: Aa +3, Ba +5, Ap −3, Bp −3, C −6, D −7, CVT 7. O diagnóstico de compartimento e a conduta são:

  • B — a virada. Anteriores positivos (cistocele), posteriores em −3 (normais), ápice em −6 (suportado), D presente (tem colo), |D − C| = 1 (não alongamento) → anterior isolado → corrige-se só a frente + o períneo, poupando o útero.
  • A. o ápice em C −6 está no lugar — histerectomizar seria operar o que não está doente.
  • C. há ponto D → há colo → não é cúpula (que é de quem não tem útero).
  • D. |D − C| = 1 < 4 exclui alongamento.
  • Por que cair. o estágio numérico é 4 (borda III↔IV), e “estágio 4” evoca “cirurgia radical” — mas quem escolhe a conduta é o compartimento, não o número.

Sobre o estágio da Lurdinha (Ba +5, CVT 7), é correto:

  • B — a virada. Corte do estágio 4 = CVT − 2 = 5; +5 ≥ 5 → estágio 4, na borda (o ponto de fronteira pertence ao IV). E, esteja em III ou IV, a conduta é a mesma — decidida pelo compartimento.
  • A. o estágio 4 não exige alcançar o CVT (“faltando 2 já conta”) — parar no 3 ignora CVT − 2.
  • C. +5 está muito além da faixa −1 a +1 do estágio 2.
  • D. o corpo perineal não entra no estadiamento ordinal (que sai do ponto mais distal).
  • Por que cair. achar que “estágio 4 = igual ao CVT” é o erro que o cálculo CVT − 2 corrige.

Por que a Lurdinha não precisa de histerectomia nem de sacrocolpopexia?

  • B — a virada. Ápice e parede posterior poupados → corrige-se apenas o compartimento anterior; não há útero descendo (dispensa histerectomia) nem cúpula a fixar (dispensa sacrocolpopexia).
  • A. a decisão é anatômica, não por recusa — o enunciado é sobre indicação.
  • C. falso: a cistocele acentuada dela é cirúrgica (colporrafia anterior) — o que se dispensa é a cirurgia do ápice.
  • D. o estágio 4 não contraindica cirurgia; ele indica corrigir — só que pelo compartimento certo.
  • Por que cair. “estágio 4” soa como “grave demais”, mas grave pede correção dirigida, não abstenção.
A seguir

Fechada a distopia da dona Lurdinha por inteiro, um novo caso entra em cena — a Rafaela, jovem, com sangramento — abrindo a discussão do ciclo menstrual. Paciente distinta, história nova.