Página 1 · Prolapsos / distopia genital

Dona Lurdinha voltou — e agora esses sete números têm dono

GinecologiaPrincípio do sinal− dentro · + foraCompartimento anteriorDistopia é prolapso
Caso 1 · reabre o Corredor de Casos

No fim do último encontro da dona Lurdinha (60 anos, G5P5), o exame de períneo e uma sequência de sete números soltos — Aa +3, Ba +5, Ap −3, Bp −3, C −6, D −7, CVT 7 — ficaram sem tradução. É esse enigma que se resolve agora: o que ela tem, com que gravidade, e o que se faz por ela.

A dona Lurdinha e os sete números que ficaram sem dono

A dona Lurdinha tem 60 anos, é G5P5 (cinco gestações, cinco partos) e já é conhecida: a queixa urinária dela — a necessidade súbita que a fazia perder antes de chegar ao banheiro — foi investigada e tratada. No fim daquele encontro, porém, o exame ginecológico registrou duas coisas que ficaram penduradas, sem interpretação: um períneo com cicatriz de episiotomia e uma retração compatível com rotura de 2º grau, e uma sequência de sete números da classificação POP-Q — Aa +3, Ba +5, Ap −3, Bp −3, C −6, D −7, CVT 7. Números crus, sem tradução. É esse enigma que agora se resolve: o que essa paciente tem, com que gravidade, e o que se faz por ela. A régua que decodifica tudo isso é o coração desta discussão — e no fecho a Lurdinha sai inteira.

Caso 1 · Lurdinha, 60a, G5P5

Corredor de Casos · gineco
Estado herdado
Urge-incontinência já investigada e tratada; períneo com episiotomia + rotura de 2º grau.
POP-Q cru
Aa +3 · Ba +5 · Ap −3 · Bp −3 · C −6 · D −7 · CVT 7 — sete números ainda sem tradução.
Primeira leitura
Pelos sinais, o que desceu está na frente (compartimento anterior). Estágio e conduta ficam para o fecho.
estado carregado · segue até o fecho do bloco

O princípio do sinal: negativo é dentro, positivo é fora, zero é a carúncula himenal

Antes de qualquer ponto, uma única chave abre o sistema: o sinal do número diz onde a estrutura está. Um número negativo significa que aquela estrutura está dentro do canal vaginal — da carúncula himenal para dentro. Um número positivo significa que ela está para fora do canal. E o zero é exatamente a carúncula himenal, o intróito vaginal, o plano de referência a partir do qual tudo se mede. Guardado isso, os sete números da Lurdinha deixam de assustar: cada um só responde a uma pergunta simples — essa parede está dentro (−) ou para fora (+)?

A primeira leitura da Lurdinha: o que desceu está na frente

Aplicando o sinal aos números dela, o quadro se desenha sozinho. Os pontos da parede anterior estão positivos — Aa +3 e Ba +5 —, ou seja, a parede da frente está para fora da vagina, alguns centímetros além da carúncula himenal. Os pontos da parede posterior estão em −3 (Ap −3, Bp −3): dentro, normais. E os pontos apicais estão bem para dentro — C −6 e D −7 —, o que significa colo e fundo de saco suportados, no lugar. A conclusão é imediata, mesmo antes de estadiar: o que desceu na Lurdinha está na frente — o compartimento anterior. Uma parede da frente para fora, com o resto no lugar, tem nome, e ele vem ao longo desta discussão.

Uma prévia do colo: por que ela não tem alongamento

Vale já adiantar um cálculo que reaparece com força: a diferença entre os pontos D e C. Em coordenadas, D − C = −7 − (−6) = −1; o que interessa é o módulo dessa diferença, 1 cm, bem menor que 4 cm. Esse limiar de 4 cm separa um colo de comprimento normal de um colo alongado (o alongamento hipertrófico). Como a diferença dela é de apenas 1 cm, o colo da Lurdinha é normal — ela não tem alongamento. Guarde a régua dos 4 cm: ela aparece primeiro no exame físico e depois, exatamente com esse cálculo D − C, dentro do POP-Q.

Distopia é prolapso — e o plano para cravar o resto

Uma palavra para não travar no vocabulário: distopia é sinônimo de prolapso — o deslocamento de um órgão pélvico para fora da sua posição. E a parte de distopia é objetiva: diagnosticou, trata. O que sobra de difícil não é a decisão terapêutica, é a quantificação. Para cravar o estágio e a conduta da Lurdinha, o caminho é claro: primeiro os tipos de prolapso e o suporte anatômico de cada compartimento; depois as cirurgias, por compartimento; e então o POP-Q completo — o sistema de coordenadas, a régua que gradua o estágio e o simulador que treina a leitura. Com essas peças na mão, os sete números da Lurdinha se traduzem por inteiro.

A régua da Lurdinha — os sete números plotados

modo leitura · CVT 7
Aa +3Ba +5Ap −3Bp −3C −6D −7
− dentro (suportado)0 carúncula himenal+ fora (prolapso)
O PRINCÍPIO DO SINAL NO SISTEMA POP-Q Em resumo: O sinal da medida indica a relação topográfica com o hímen (plano zero). Valores negativos (−) indicam estruturas internas sustentadas; valores positivos (+) indicam prolapso exteriorizado. PLANO DA CARÚNCULA HIMENAL (0) Aa/Ba (−3) Ba (+3) 0 (Hímen) −3 cm DENTRO (−) +3 cm FORA (+) SINAL NO POP-Q No sistema POP-Q, a carúncula himenal é a referência (ponto 0). Interaja com os órgãos à esquerda para ver a convenção: As distâncias ganham sinais clínicos com base na sua localização. POSIÇÃO INTERNA A estrutura encontra-se acima da carúncula himenal (dentro). Sinal: NEGATIVO (−) Toda medida de distância realizada para dentro do canal vaginal indica ausência de prolapso. Exemplo: Ponto Aa = −3 cm POSIÇÃO EXTERNA A estrutura desceu além da carúncula himenal (exteriorizada). Sinal: POSITIVO (+) Toda medida de distância realizada para fora do introito vaginal caracteriza um prolapso clínico. Exemplo: Ponto Ba = +3 cm
O princípio do sinalA carúncula himenal fixada no zero; uma estrutura dentro do canal (−, para dentro) e outra para fora (+, para fora), com o eixo −/0/+ ao lado. A chave anatômica que abre o POP-Q, por desenho.Esquema · a chave do sinal −/0/+
Foto clínica de cistocele — parede vaginal anterior exteriorizada pelo introito, abaulamento amplo e liso ultrapassando o plano himenal; colo e ápice não exteriorizados.
Cistocele exteriorizada: o achado que os números positivos descrevem

A parede vaginal anterior, recoberta por mucosa, protrui pelo introito — o abaulamento amplo e liso que os pontos Aa +3 / Ba +5 traduzem em coordenadas: parede da frente vários centímetros além da carúncula himenal.

Cystocele, por Mikael Häggström, via Wikimedia Commons. Domínio público (CC0 1.0). Fonte: Wikimedia.

real de achado — cistocele de parede anterior (ápice não avaliado por esta foto)

Quiz — fixação

No sistema POP-Q, um ponto anotado como −3 indica que a estrutura correspondente está:

  • B — a virada. O sinal é o mapa: negativo = dentro (da carúncula himenal para dentro), e o valor é a distância em cm até esse plano zero.
  • A. inverte o sinal — para fora seria positivo (+3), o oposto exato.
  • C. confunde −3 com 0; a carúncula himenal é o zero, e −3 fica 3 cm proximal a ela.
  • D. troca o plano de referência: o POP-Q não se mede pelo sacro, e sim pelo hímen.
  • Por que cair. o aluno lê “3” e esquece que o sinal carrega a direção — é justamente o descuido que a banca explora.

Os pontos anteriores da Lurdinha são Aa +3 e Ba +5, e os apicais C −6, D −7. A primeira leitura, ainda sem estadiar, é:

  • B — a virada. Pontos anteriores positivos = parede da frente para fora; ápice negativo (C −6) = colo bem dentro, suportado → o compartimento que cedeu é o anterior.
  • A. erra o compartimento: o colo em −6 está longe de descer — apical suportado é o oposto de prolapso uterino.
  • C. lê o −3 posterior como doença; −3 é justamente o valor normal (ausência de prolapso).
  • D. o alongamento exige |D − C| > 4, e aqui D − C = −1 (módulo 1 cm) → colo normal, não alongado.
  • Por que cair. ver “prolapso” e assumir “útero descendo” ignora que cada compartimento tem seu ponto — o sinal já aponta a frente.
A seguir

Saber que “algo desceu na frente” só tem sentido depois de conhecer os três andares do assoalho e o que cada um sustenta — é o mapa dos compartimentos que dá nome ao que a Lurdinha tem.