CASO

João: a ascensão que não é "cerveja"

João, 22 anos. Dormência nos pés durante o futebol → dois dias depois não sobe escada → domingo não fica em pé no banho → segunda-feira não sai do sofá. A cerveja do fim de semana foi a isca; a progressão em dias é o fio.

Reconstruir o caso completo de João, listar os dados positivos antes de nomear a doença e reconhecer os cinco achados que definem o quadro.

Caso João

João, 22 anos. Enquanto assistia a uma partida de futebol com o vizinho, iniciou dormência nos pés. A dormência foi prontamente atribuída ao excesso de cerveja — isca de porta, não a causa.

Dois dias depois, dificuldade em subir para o quarto. A fraqueza piorou rapidamente. Num domingo, mal conseguindo ficar em pé durante o banho, preferiu ficar em casa. Na manhã de segunda-feira, não conseguia sair do sofá. O quadro piorou: perdeu a força dos membros superiores também.

Exame

Método: ir devagar

Qual o provável diagnóstico? Antes de nomear a doença, listar os dados positivos.

Cinco positivos

  1. Fraqueza que começa com dificuldade para subir escadas (membros inferiores primeiro).
  2. A fraqueza evolui e acomete também os membros superiores.
  3. Trajeto: começa embaixo e sobe (ascendente).
  4. Hipotonia / flacidez nos membros.
  5. Reflexos tendinosos profundos abolidos.
  6. (bônus liquórico) Hiperproteinorraquia com contagem celular normal.

Por que importa na prática: se a isca "cerveja" vira diagnóstico, a progressão em dias até tetraparesia e arreflexia passa batida — e a porta erra o tempo de agir.

Resumo operacional: dormência → fraqueza ascendente em dias + flácida + arreflexia + LCR proteína ↑ / células normais = quadro de porta para GBS.

Exame de força muscular nos membros inferiores: examinador aplica resistência à elevação da perna (teste do reto femoral) em adulto jovem em decúbito dorsal.
Teste muscular manual do quadríceps (reto femoral) — exame de força proximal de MMII em adulto jovem.

Kineziolv, Manual Muscle Testing · CC BY-SA 4.0 · fonte

O achado motor de porta

A fraqueza começa nos membros inferiores — o paciente não sobe escada, não fica em pé no banho, não sai do sofá. O exame de força proximal de MMII é o primeiro dado objetivo que transforma "cansaço" em déficit motor documentado. A progressão em dias, e não em horas ou meses, é o que separa esta porta das demais.

Ascensão temporal da paralisia flácida Linha do tempo do caso João, dos sintomas nos pés à progressão para membros superiores e ao alerta autonômico. EVOLUÇÃO TEMPORAL DA PARALISIA FLÁCIDA ASCENDENTE E ALERTA AUTONÔMICO Caso João · Fraqueza progressiva de membros inferiores a membros superiores com hiperatividade simpática precoce LEGENDA DE INTERPRETAÇÃO CLÍNICA Sobe em dias: MMII (Dia 0-+2d) → MMSS (Segunda). PA/FC elevadas: Disautonomia. *Cerveja no fim de semana = isca anedótica relogiada (não é causa metabólica/tóxica direta). MAPEAMENTO TOPOGRÁFICO DA ASCENSÃO MOTORA Marcha caudal-rostral ao longo do eixo espinhal e periférico POSIÇÃO NO SOFÁ (SEGUNDA-FEIRA) C5-T1 (MMSS) L2-L5 (Proximal MMII) S1-Distal (Pés/Tornoz.) PROGRESSÃO ASCENDENTE (CAUDAL → ROSTRAL) LINHA DO TEMPO DA EVOLUÇÃO MOTORA (4 NÓS TEMPORAIS) Clique ou use as setas do teclado para alternar entre os momentos da história de João 01 DIA 0 DORMÊNCIA Pés dormentes 02 +2 DIAS ESCADA Dificuldade p/ subir 03 DOMINGO BANHO Instabilidade joelhos 04 SEGUNDA SOFÁ + MMSS Incapacidade marcha Toque ou clique em um nó temporal para expandir o achado clínico SINAIS VITAIS DE DESAUTONOMIA PRESSÃO ARTERIAL 160 × 90 mmHg FREQ. CARDÍACA 130 bpm ▲ Alerta: Instabilidade vegetativa / hiperatividade simpática ISCA ANEDÓTICA VS CAUSA Cerveja no Fim de Semana • Atribuída pelo paciente como gatilho. • É ISCA ANEDÓTICA, não causa tóxica. Não adiar conduta buscando intoxicação alcoólica! NÓ 01 · DIA 0 Instalação do Quadro Distal Início dos sintomas sensitivo-motores periféricos ao acordar Quadro Clínico: • Parestesia e dormência acentuada na planta dos pés e pododáctilos. • Ausência de dor axial relevante ou nível sensitivo dorsal definido. Exame Físico & Reflexos: • Força Preservada em MMII (Grau 5/5) com hiporreflexia aquileu (+/4+). ➔ Marco Didático: Sintomas sensitivos distais precedem o défice motor manifesto. NÓ 02 · +2 D Comprometimento de MMII (Escada) Ascensão motora proximal nos membros inferiores Quadro Clínico: • Dificuldade nítida para subir degraus e levantar-se de cadeiras baixas. • Sensação de "pernas pesadas" e instabilidade ao caminhar rápido. Exame Físico & Reflexos: • Força MMII Proximal Grau 3/5, Distal Grau 4/5. Arreflexia Patelar (0/4+). ➔ Marco Didático: Acometimento de reflexos miotáticos universais em MMII. NÓ 03 · DOM Instabilidade Postural no Banho Progressão da paresia nos joelhos e perda de ortostatismo Quadro Clínico: • Quase queda durante o banho; impossibilidade de ensaboar-se de pé. • Ingestão de cerveja no fim de semana erroneamente interpretada como causa. Exame Físico & Reflexos: • Força MMII Proximal Grau 2/5 (não vence gravidade), Distal Grau 2/5. ➔ Marco Didático: Cerveja é isca temporal anedótica; o motor já falhava no +2d. NÓ 04 · SEG Prostração no Sofá + MMSS Ascensão a membros superiores + Alerta Autonômico Crítico Quadro Clínico: • Confinamento ao sofá (incapacidade total de marcha de dois pés). • Início recente de fraqueza nas mãos/braços (dificuldade de elevar braços). Exame Físico & Parâmetros Autonômicos: • Força MMII Grau 1/5; MMSS Proximal Grau 3/5. Arreflexia Global (0/4+). • PA 160×90 mmHg | FC 130 bpm → HIPERATIVIDADE SIMPÁTICA PRECOCE! ➔ CONDUTA EMERGICIAL: Monitorar Capacidade Vital (CVF) e PImáx/PEmáx imediata!

A localização no neurônio motor diferencia esse padrão entre 1º NMS, 2º NMS, placa e músculo.

Quiz

Q1. Em João, o primeiro erro de porta a evitar é:

Q2. O trajeto motor descrito em João é classicamente:

Q3. No LCR de João, o par clássico é: