Página 7 · Parte A · Paredes
maior forame do esqueleto humano.
A maior janela do esqueleto — e ela é quase toda fechada
É o maior forame do esqueleto humano. E quase nada passa por ele.
Uma janela enorme no osso, e ela está fechada
Continue olhando o mesmo osso do quadril, no mesmo ângulo — de fora, com o acetábulo no centro. Abaixo e à frente do acetábulo há uma abertura oval grande, delimitada pelos ramos do púbis acima e à frente e pelos ramos do ísquio abaixo e atrás. É o forame obturatório, e ele é o maior forame do esqueleto humano. Um de cada lado.
E agora a reviravolta, que é o que a página existe para instalar: ele é quase todo fechado. Apesar do tamanho, está ocluído em praticamente toda a extensão por uma lâmina fibrosa densa — a membrana obturatória. Não é uma passagem aberta; é uma janela emparedada. Quem imagina um buraco vazio no osso constrói a topografia errada e não entende nada do que vem depois.
Vale registrar uma coisa antes de seguir, com honestidade: daqui em diante a explicação se apoia diretamente na literatura obstétrica e anatômica de referência — Rezende, Zugaib, Moore, Gray's e a Terminologia Anatômica. É o miolo do assunto, é o que mais cai, e nada disso pode ficar de fora. O forame obturatório é o primeiro desses pontos, e ele aparece adiante numa questão de banca como se fosse estrutura já conhecida. Ele é apresentado aqui, na origem, e não no vencimento — porque gabarito com premissa faltando é exatamente o padrão que faz a matéria travar.
A única passagem: o canal obturatório
A membrana obturatória deixa uma única abertura, no alto e para fora: o canal obturatório. Por ele passam, saindo da pelve em direção à face medial da coxa, três estruturas — o nervo obturatório, a artéria obturatória e a veia obturatória. Só isso. O restante do forame, que é a maior parte da área, é membrana.
Fixe a geometria, porque é dela que sai a segurança de um trajeto cirúrgico: o buraco é enorme, a passagem é minúscula, e a passagem está no canto de cima e de fora. Logo, a parte de baixo e de fora do forame é membrana pura — território sem vaso e sem nervo.
Quem nasce ali: o obturador interno forra a parede, não o chão
Dois músculos se originam nas margens desse forame e na própria membrana: o obturador interno, na face pélvica — isto é, do lado de dentro —, e o obturador externo, na face de fora.
O que interessa aqui é o obturador interno, e por uma razão que vai cobrar juro adiante: ele forra a parede lateral da pelve. Ele reveste a parede, de dentro; ele não é chão. Guarde essa frase com o peso de uma regra, porque ela é a chave de uma questão de banca que aparece muito mais adiante: o obturador interno é parede, não é assoalho — e por isso ele nunca compõe o diafragma pélvico, por mais que o nome soe pélvico e por mais que ele apareça em todas as figuras de pelve.
Por que uma tela cirúrgica passa por ali
Agora a aplicação, que é onde o forame reaparece em prova. Existe uma técnica de correção de incontinência urinária de esforço em que uma tela é passada através do forame obturatório ↗A7. E a pergunta que o leitor deve conseguir responder é: por que passar uma agulha por ali é seguro?
A resposta está inteira na geometria desta página. O forame obturatório é uma janela de osso lateral, longe da linha média. Ele está fechado por uma membrana, com uma só passagem no canto de cima, por onde correm o nervo e os vasos obturatórios. A agulha atravessa a membrana, na parte de baixo e de fora — longe do canal onde estão as estruturas nobres, e sobretudo longe da bexiga, que fica na frente e no meio. É a lateralidade do forame que torna esse trajeto seguro. O trajeto detalhado, a comparação entre técnicas e as regras de conferência intraoperatória são território da correção da incontinência ↗A7; o que se entrega aqui é o buraco no osso e a razão geométrica.
E há uma clínica de brinde, rara mas elegante, que prova que o canal existe de verdade: a hérnia obturatória — mais frequente em mulheres idosas e magras, em que uma alça intestinal se insinua pelo canal obturatório e comprime o nervo obturatório, produzindo dor referida na face medial da coxa e no joelho. Chama-se sinal de Howship-Romberg, e é a demonstração clínica de que aquela abertura de canto é uma passagem real.

Forame obturatório quase todo fechado pela membrana; única passagem no canto súpero-lateral.
O. Paul Gobée et al., Open3DAnatomy / LUMC. CC BY-SA 4.0.
Quiz — fixação
O forame obturatório é o maior forame do esqueleto humano. O que atravessa a sua área?
- Gabarito B. O contraste entre tamanho da janela e tamanho da passagem é o conteúdo da página: o forame é enorme e está quase todo emparedado pela membrana obturatória; a única passagem é o canal obturatório, no canto de cima e de fora, por onde saem nervo, artéria e veia obturatórios rumo à face medial da coxa.
- (A) acerta quem passa e erra a proporção — e é a proporção que decide a segurança do trajeto cirúrgico; se o feixe ocupasse tudo, não haveria por onde atravessar.
- (C) é anatomicamente falso: o ureter desce dentro da pelve em direção à bexiga, não sai para a coxa; ele não tem nenhuma relação com o forame.
- (D) também é falso e troca a referência: o pudendo contorna a espinha isquiática e o ligamento sacroespinhal, num trajeto posterior — nada a ver com o forame anterior.
- Por que cair na (A): o nome do feixe é obturatório, o forame é obturatório, e a associação nominal sugere ocupação total. A imagem correta é a inversa: janela grande, fresta pequena — e é a fresta que carrega o feixe.
O músculo obturador interno, que se origina na face pélvica da membrana obturatória, tem qual relação topográfica com a pelve?
- Gabarito A. O obturador interno reveste a parede lateral da pelve pela face interna. Essa é a informação que separa parede de chão, e é uma das mais rentáveis do assunto: o que forra a lateral não sustenta nada por baixo.
- (B) é o erro que a página existe para prevenir, e ele é cobrado literalmente em prova — o assoalho é formado por outros músculos, e o obturador interno não participa dele, apesar de aparecer em quase toda figura de pelve.
- (C) inventa um teto muscular que não existe: a pelve não é separada do abdome por músculo; a passagem entre os dois compartimentos é contínua, delimitada por uma borda óssea.
- (D) o coloca duas camadas abaixo do seu lugar real — o espaço superficial do períneo é território de outros músculos, todos externos ao anel ósseo.
- Por que cair na (B): o músculo é grande, é pélvico, aparece em toda ilustração de pelve e tem inserções vizinhas às do levantador do ânus — inclusive a fáscia dele dá origem a um espessamento de onde parte um dos feixes do levantador. Vizinhança, porém, não é pertencimento: parede e chão se tocam e não se confundem.