Página 10 · Parte A · Paredes

Pegadinha

Espinha e tuberosidade: o par mais trocado da bacia

Um enunciado diz 'diâmetro bi-isquiático'. Você já sabe que existem duas saliências do ísquio, com medidas diferentes. Qual das duas ele quer — 10,5 ou 11 cm? A resposta não está na palavra: está em qual estreito o enunciado estava discutindo.

ObstetríciaParte A · ParedesItens —Pegadinha
Tópico 1

Duas saliências do mesmo osso, e elas não se parecem

As duas nascem do ísquio, o osso de trás e de baixo do quadril. E aí termina a semelhança.

A espinha isquiática é pontiaguda e fina, projetada para dentro e para trás, na face interna do osso, mais acima, na altura do meio do canal. Nela se prendem três coisas que importam: o ligamento sacroespinhal, que sai dela e vai ao sacro; o arco tendíneo da fáscia pélvica, que é de onde parte a fáscia que envolve as vísceras; e parte do levantador do ânus. Ou seja: a espinha ancora chão e cordas ao mesmo tempo — é um ponto de fixação, além de ser uma referência de medida.

A tuberosidade isquiática é o oposto em quase tudo: é um espessamento rombo, grosso e rugoso da porção ínfero-posterior do corpo do ísquio, situado abaixo e atrás da espinha, já na saída. É o osso em que se senta — na posição sentada, o peso do tronco descarrega nas duas tuberosidades. Nela se prendem o ligamento sacrotuberal e os músculos isquiotibiais, que descem para a parte de trás da coxa.

Fixe pelo contraste tátil, porque é o que não se esquece: a espinha é um bico que se acha por dentro; a tuberosidade é um bloco que se acha por fora.

Tópico 2

Ache a espinha em você

Vale repetir o roteiro tátil, porque a espinha é a estrutura mais usada da bacia e a mais difícil de imaginar. Ao toque vaginal, com o dedo indicador dentro e apontando para o lado, na altura de mais ou menos metade do canal, sente-se de cada lado uma saliência dura e pontuda que aparece de repente numa parede lisa. Ela é discreta — quem procura um bico grande não acha nada e conclui que está no lugar errado. O confirmador: ao lado dela, indo para trás, sente-se uma corda tensa — o ligamento sacroespinhal, que sai da espinha em direção ao sacro. Achou a corda, achou a espinha.

A tuberosidade não precisa de roteiro: ela se acha por fora, na prega glútea, e é o relevo em que o corpo apoia quando a pessoa se senta numa superfície dura.

Tópico 3

As quatro coisas para que a espinha serve

Quatro usos, todos cobráveis, e todos derivam da mesma propriedade — ela projeta para dentro, no meio do canal:

1. É o zero da régua de descida fetal. O plano que passa pelas duas espinhas é o marco a partir do qual se conta a altura da apresentação. 2. É o limite lateral do estreito médio, e portanto a extremidade do diâmetro biespinhal, de cerca de 10,5 cm — o menor diâmetro da pelve. 3. É a referência do bloqueio do nervo pudendo. A agulha é dirigida medial e inferiormente à espinha, que é onde o pudendo contorna o ligamento sacroespinhal. 4. Serve à avaliação da bacia: espinhas proeminentes, sentidas com facilidade ao toque, sugerem estreitamento do plano médio — o achado típico da bacia androide.

E agora a costura que amarra o conteúdo inteiro, e que quase nunca é dita: o biespinhal, entre as duas espinhas, é o menor diâmetro da pelve. E é exatamente a linha que liga essas duas espinhas que serve de zero da régua de descida. Não é coincidência: marcou-se o zero no ponto mais apertado do caminho. Chegar ali é ter passado pelo pior pedaço — e é por isso que atingir o plano zero é um marco clínico, e não apenas uma leitura de posição.

Tópico 4

A armadilha do "bi-isquiático"

A palavra bi-isquiático é usada para duas medidas diferentes, e é aí que o ponto se perde:

- no estreito médio, "bi-isquiático" significa biespinhal, entre as espinhas isquiáticas — 10,5 cm; - no estreito inferior, "bi-isquiático" significa bituberoso, entre as tuberosidades isquiáticas — 11 cm.

A regra de desempate é curta e resolve sempre: se o enunciado disser "bi-isquiático", olhe qual estreito ele está discutindo. Espinha é meio, tuberosidade é saída.

Assoalho Pélvico · Espinha e Tuberosidade Isquiáticas Prancha anatômico-clínica comparativa entre a espinha isquiática (bico medial, plano médio) e a tuberosidade isquiática (bloco inferior, plano de saída). ESPINHA vs TUBEROSIDADE ISQUIÁTICA Prancha Tátil: Espinha é bico interno (Plano Médio · 10,5 cm); Tuberosidade é bloco externo (Plano de Saída · 11 cm). COM PISTAS SEM PISTAS VISTA MEDIAL (HEMI-PÉLVIS) SÁCRO FOSSA ILÍACA PÚBIS Forame Isquiático Maior Forame Isquiático Menor BIESPINHAL: 10,5 cm BITUBEROSO: 11,0 cm ESPINHA (BICO) Plano Médio · DeLee 0 TUBEROSIDADE (BLOCO) Plano de Saída · 11 cm Lig. Sacroespinhal Lig. Sacrotuberal REGRA DE OURO OBSTÉTRICA ESPINHA É MEIO · TUBEROSIDADE É SAÍDA ESPINHA ISQUIÁTICA BICO INTERNO Forma Tátil: Saliência pontiaguda, pequena, para dentro. Identificação: Palpação vaginal profunda no toque obstétrico. 0 Zero da Descida (DeLee 0) O plano biespinhal é o nível zero da bacia. Maior diâmetro cefálico (biparietal) atingiu o plano médio. 10.5 Extremo Biespinhal (10,5 cm) Menor diâmetro transversal da bacia obstétrica. Estrreitamento crítico durante a rotação interna da cabeça. Rx Referência de Bloqueio do Pudendo Guia anatômico indispensável para anestesia perineal. Agulha inserida a 1 cm póstero-inferior à espinha. PM Proeminência = Plano Médio Estreito Espinhas salientes reduzem a área do plano médio. Parâmetro de prognóstico da bacia ginecoide vs androide. TUBEROSIDADE ISQUIÁTICA BLOCO EXTERNO Forma Tátil: Bloco rombo, espesso, rugoso, abaixo/atrás. Identificação: Palpação perineal externa direta / apoio ao sentar. PS Estreito Inferior / Plano de Saída Constitui o limite ósseo inferior do canal de parto. Determina a abertura final para o desprendimento fetal. 11.0 Diâmetro Bituberoso (11,0 cm) Distância transversal entre as faces internas das tuberosidades. Avaliável externamente com o pelvímetro de Thoms ou punho. Lig Inserção do Ligamento Sacrotuberal Resistente feixe fibroso de estabilização pélvica posterior. Limita a nutação do sácro e delimita o forame menor. Per Base do Triângulo Urogenital / Períneo Ponto de sustentação do peso corporal na sedestação. Origem dos músculos isquiocavernoso e transverso do períneo.
Esquema — Espinha e tuberosidade: o par mais trocado da baciaIlustração autoral da página; complementa o texto soberano.Esquema autoral
Coxal medial: espinha e tuberosidade isquiáticas
Coxal medial: espinha e tuberosidade isquiáticas

Mesmo enquadramento sem pistas: bico da espinha e bloco da tuberosidade.

Anatomist90 / asset local de produção A12 (ver proveniência p10). Uso educacional.

Quiz — fixação

  1. Um enunciado descreve a avaliação do diâmetro bi-isquiático no estreito inferior. A que medida ele se refere, e qual é o valor de referência?

  2. Por que o plano das espinhas isquiáticas foi escolhido como o zero da régua de altura da apresentação?