Página 4 · Síndrome pré-menstrual e síndrome disfórica pré-menstrual

Sintoma grave não fecha disfórica. O que fecha é uma conta, dois registros e uma exclusão

GinecologiaBônusGrupo majorTotal de 512 meses para trás2 ciclos para a frenteDiagnóstico provisório

Quatro perguntas fecham — ou descartam — o transtorno disfórico pré-menstrual

  • Qual sintoma é obrigatório?
  • Quantos sintomas no total?
  • Que registro se pede para trás, e qual para a frente?
  • O que precisa ser excluído antes de rotular?

O portão de entrada: a lista major (e quantos itens ela tem de verdade)

A lógica vem emprestada da clínica médica: existe um critério major, e é preciso pelo menos um sintoma dessa lista para sequer cogitar o diagnóstico. Os sintomas major são labilidade, irritabilidade, explosão de raiva, humor deprimido e ansiedade acentuada. Repare no adjetivo que se repete nas fontes: acentuada, acentuado — o critério do DSM-5-TR (2022) é literalmente marked em cada item, e esse adjetivo é o conteúdo, não um enfeite. Detalhe de contagem que vale ponto em banca minuciosa: o grupo major do DSM-5-TR tem quatro itens, não cinco — labilidade afetiva acentuada; irritabilidade ou raiva acentuada ou aumento dos conflitos interpessoais; humor deprimido acentuado com desesperança ou pensamentos autodepreciativos; ansiedade acentuada com tensão ou sensação de estar no limite. A lista de cinco nasce de desdobrar "irritabilidade ou raiva" em dois. Clinicamente é inofensivo; se a pergunta for "quantos sintomas centrais o DSM-5-TR lista?", a resposta é quatro.

A conta: cinco no total, pelo menos um do major

A exigência quantitativa é uma combinação de sintomas que totalize cinco, sendo pelo menos um deles da lista major. Na prática: 1 major + 4 outros — e esses quatro podem inclusive ser outros sintomas da própria lista major. Não é "cinco sintomas quaisquer" nem "cinco sintomas obrigatoriamente diferentes de grupos diferentes": é total de cinco, com no mínimo um do grupo central. Uma paciente com labilidade acentuada, irritabilidade, humor deprimido, fadiga e insônia fecha a conta; uma paciente com cinco sintomas exclusivamente físicos, nenhum do grupo central, não fecha.

Os outros que somam — inclusive o que costuma faltar na lista

Compõem a conta: interesse diminuído, sensação de fadiga, dificuldade de concentração, aumento do apetite, alteração do padrão do sono (que pode se manifestar como insônia ou como sonolência) e os somáticos — mastalgia, edema e ganho de peso. Há ainda um item do grupo que costuma escapar das listas resumidas e que o DSM-5-TR e a tradução oficial brasileira trazem explicitamente: sensação de estar sobrecarregada ou fora de controle. É um sintoma que a banca oferece com frequência, e quem não o reconhece rejeita alternativa correta. Sobre o ganho de peso, um cuidado de mecanismo: ele acontece porque aumenta a retenção hídrica, não por outro motivo. É o mesmo fenômeno que explica o edema e a mastalgia — o fio que vem da coluna somática e que vai justificar o diurético.

Os dois registros que a banca troca: um ano para trás, dois ciclos para a frente

Este é o ponto onde mais gente se perde, e a razão é que são duas exigências diferentes, frequentemente fundidas numa só. Para trás, por anamnese: os sintomas têm de ter ocorrido na maioria dos ciclos do último ano — é a história retrospectiva, e é dela que vem a janela de 12 meses. Para a frente, por registro: a confirmação exige diário prospectivo de pelo menos dois ciclos sintomáticos — o instrumento validado é o Daily Record of Severity of Problems, e as fontes brasileiras e internacionais convergem nesse número. O número cobrado em prova é 2 ciclos. Um aluno treinado em "diário de um ano" erra a alternativa "registro prospectivo de dois ciclos" e, pior, na clínica faria a paciente esperar doze meses de anotação antes de iniciar o tratamento. E há uma saída elegante embutida na própria regra: antes da confirmação prospectiva, o diagnóstico pode ser feito de forma provisória — o que responde de imediato à pergunta "e enquanto isso, faço o quê?". Trata-se com diagnóstico provisório e confirma-se com o diário.

A melhora documentada: o que o diário confirma e o que ele exclui

Não basta registrar que os sintomas existem: é preciso documentar que eles melhoram após o início da menstruação. A melhora documentada é parte do critério, não um detalhe de conforto. E é ela que dá ao diário a sua segunda função, mais fina: o registro prospectivo mostra o padrão. No padrão que preenche o critério, a intensidade sobe na semana que antecede o fluxo, despenca no primeiro dia e volta à linha de base entre os ciclos — os sintomas ficam mínimos ou ausentes na semana pós-menstrual. Quando o traçado piora antes do fluxo mas nunca retorna à linha de base, há sintoma persistente durante todo o ciclo: isso não é exacerbação pré-menstrual, e é exatamente o cenário que obriga a excluir transtorno psiquiátrico antes de rotular. Também é preciso ter cinco ou mais sintomas na semana que antecede a menstruação — e note que essa é a semana final, o mesmo recorte de tempo que o critério conta e que não se confunde com os ~14 dias em que os sintomas podem se estender.

O que o diário revela — a diferença mora no vale Traçado de sintomas em três ciclos, contrastando retorno à linha de base após a menstruação com sintoma persistente entre ciclos. intensidade de sintomas semana que antecede a menstruação melhora após o início da menstruação sintoma persistente — excluir transtorno psiquiátrico retorna à linha de base 1º dia do fluxo 1º dia do fluxo 1º dia do fluxo 3 ciclos consecutivos toque em cada traçado
O que o diário revelaIntensidade de sintomas ao longo de três ciclos consecutivos, com a linha vermelha do 1º dia de cada fluxo. Um traçado sobe na semana que antecede, despenca com o fluxo e retorna à linha de base entre os ciclos — é o padrão que preenche o critério. O outro piora antes do fluxo mas nunca volta à linha de base: sintoma persistente ao longo de todo o ciclo, o cenário que obriga a excluir transtorno psiquiátrico antes de rotular.Esquema · três ciclos e a leitura de retorno — não é a janela única de tempo
Painel de doze gráficos em quatro linhas, uma por participante, e três colunas, correspondentes a manhã, tarde e noite. Cada gráfico mostra pontos de intensidade de humor deprimido de 0 a 5 ao longo dos dias padronizados do ciclo menstrual, com c0 no primeiro dia da menstruação, c13 na ovulação e c26 no último dia do ciclo, com uma curva suavizada sobre os pontos. Na primeira linha a curva atinge o pico no meio do ciclo. Na segunda linha a curva está alta em c0 e no fim do ciclo e forma um vale entre a ovulação e a fase seguinte. Na terceira linha a curva é praticamente plana do início ao fim do ciclo. Na quarta linha as curvas das três colunas divergem entre si. Cada gráfico exibe o coeficiente cosseno de ciclicidade.
eixo x: c0 = 1º dia da menstruação · c13 = ovulação · c26 = último dia do ciclotoque na figura para ampliar
O que o registro prospectivo revela — três padrões, três desfechos

O que o diário devolve não é uma lista: é uma forma. Cada ponto é uma anotação feita no dia, não uma lembrança colhida depois. O eixo horizontal começa em c0, o primeiro dia da menstruação, atravessa a ovulação em c13 e fecha o ciclo em c26 — e é essa ancoragem que transforma queixa em critério: sem marco temporal fixo, "piorei antes da menstruação" é impressão; com ele, é dado.

A segunda linha é o traçado que preenche o critério. A intensidade está alta no entorno do fluxo, cai até um vale entre a ovulação e a fase lútea inicial, e volta a subir na aproximação da menstruação seguinte. Há período de baixa — e é justamente ele que o critério exige ao pedir melhora documentada após o início da menstruação. O coeficiente de ciclicidade dessa participante é positivo nos três horários do dia (0,48 · 0,63 · 0,58): a oscilação é do ciclo, não do humor do momento. A terceira linha é o traçado que obriga a excluir. A curva é plana; as pontuações aparecem espalhadas por todos os dias do ciclo — não há vale, não há pico, e não há retorno à linha de base porque nunca se saiu dela (coeficiente praticamente zero: 0,07 · 0,01 · 0,08). Sintoma existe, e com intensidade; o que não existe é relação com o ciclo. Rotular esse traçado como transtorno disfórico troca o diagnóstico e, com ele, o tratamento — por isso a exclusão psiquiátrica é condição sine qua non, e não formalidade. A primeira linha é a armadilha do meio: existe oscilação clara, mas o pico é em torno de c13 — piora cíclica na janela errada. O critério conta a semana que antecede a menstruação, não a semana da ovulação; quem lê "tem variação cíclica, logo fecha" erra aqui.

⚠️ Como ler sem se enganar: cada linha tem escala vertical própria — a segunda vai de 1 a 5, a terceira de 0 a 4. Comparar altura entre participantes não diz nada. O que se compara é o formato da curva: com vale, sem vale, ou com vale no lugar errado. E um detalhe do estudo que ensina o critério pela borda: este registro cobriu um único ciclo, e os próprios autores declaram isso como limitação — a confirmação do transtorno disfórico pede dois ciclos sintomáticos de diário prospectivo porque um ciclo isolado não distingue padrão de coincidência.

Klusmann H, Brose A, Schulze L, Engel S, Laufer S, Bücklein E, Knaevelsrud C, Schumacher S. Menstrual cycle related depressive symptoms and their diurnal fluctuations — an ambulatory assessment study. BMC Women's Health. 2024;24:611, Figura 1. Licenciada sob CC BY 4.0. Sem alterações na figura. Fonte: doi.org/10.1186/s12905-024-03438-9.

Exclusão psiquiátrica e gravidade: os dois últimos portões

A síndrome disfórica pré-menstrual é diagnóstico de exclusão: é preciso excluir distúrbios psiquiátricos, e essa é condição sine qua non. O rigor tem um motivo prático — vários transtornos primários pioram na fase pré-menstrual, e chamar essa piora de transtorno disfórico troca o diagnóstico e o tratamento. É o mesmo tipo de rigor que se aplica antes de rotular qualquer quadro de humor: primeiro se exclui o transtorno primário, depois se nomeia o quadro periódico. Por fim, o portão de gravidade: para fechar o diagnóstico é preciso o extremo mais grave e incapacitante, dentro de todos esses critérios reunidos. Vale nos dois sentidos — gravidade sozinha não fecha (sem a conta, sem os registros e sem a exclusão, não é disfórica) e critério sem gravidade também não (a interferência tem de ser importante nas relações interpessoais, nas profissionais e na qualidade de vida).

Máquina de critério do transtorno disfórico

marque os sintomas e os portões

Pelo menos um do grupo major, total de cinco, e os portões em série. Se o único item ausente for o diário, o veredito é provisório — não "não fecha".

A — major (obrigatória, ≥1)
B — outros
Total de sintomas0 / 5

Não fecha. Falta: pelo menos um sintoma do grupo major · total de cinco sintomas (há 0) · história de sintomas na maioria dos ciclos do último ano · diário prospectivo de ≥2 ciclos sintomáticos · ≥5 sintomas na semana que antecede · melhora documentada após o início da menstruação · exclusão de distúrbios psiquiátricos.

Quiz — fixação

Assinale a alternativa incorreta a respeito dos sintomas do transtorno disfórico pré-menstrual, tomando como referência o DSM-5-TR:

  • Gabarito D. O critério é labilidade afetiva ACENTUADA (marked affective lability — oscilações acentuadas de humor, tristeza súbita, choro fácil, sensibilidade aumentada à rejeição). A alternativa inverte o adjetivo, e é exatamente essa inversão que a banca cobra: o quadro é de excesso de oscilação afetiva, nunca de redução.
  • A. é tradução literal de um dos itens do grupo obrigatório — irritabilidade/raiva/conflitos interpessoais. Não responde, porque está correta.
  • B. também é item do grupo obrigatório — humor deprimido com desesperança ou autodepreciação. Está correta.
  • C. idem — ansiedade, tensão e sensação de estar no limite compõem o quarto item central. Está correta.
  • Por que cair em (A), (B) ou (C). a questão pede a incorreta, e o aluno que lê rápido marca a primeira alternativa que reconhece como verdadeira. A âncora que salva é o adjetivo: em todos os itens do grupo central, o qualificador é "acentuado(a)" — qualquer alternativa que atenue (reduzida, discreta, leve) está invertendo o critério.

A confirmação diagnóstica do transtorno disfórico pré-menstrual exige:

  • Gabarito B. São dois requisitos distintos: para trás, a história tem de mostrar sintomas na maioria dos ciclos do último ano; para a frente, a confirmação exige diário prospectivo de ≥2 ciclos sintomáticos.
  • A. é a fusão clássica — pega a janela de 12 meses, que é da anamnese, e a cola no diário, criando uma exigência que nenhuma fonte faz e que adiaria o tratamento por quase um ano.
  • C. dispensa o registro prospectivo, e é justamente ele que valida o diagnóstico: a recordação retrospectiva isolada é reconhecidamente pouco confiável.
  • D. descreve o critério da síndrome pré-menstrual (5 dias, 3 ciclos consecutivos, retrospectivo) — é a troca de conjunto de critérios, o erro mais frequente do tema.
  • Por que cair na (A). "um ano" e "diário" aparecem na mesma frase quando se resume o critério, e a memória funde os dois; o antídoto é fixar a direção de cada exigência — 12 meses olha para trás, 2 ciclos olham para a frente. E vale a consequência prática: enquanto o diário corre, o diagnóstico é provisório e a conduta já pode começar.
A seguir

Dois conjuntos de critérios, a mesma lista de sintomas nos dois. Vistos lado a lado, três coisas — e só três — separam uma síndrome da outra.