Página 6 · Revisão do ciclo menstrual
Depois do disparo: corpo lúteo, progesterona e os 14 dias que não mudam
Se um ciclo dura 28 dias e outro 40, o que muda — a primeira metade ou a segunda? A resposta deixa datar a ovulação de olhos fechados.
O folículo roto vira corpo lúteo (agora manda a progesterona)
Rompeu o folículo (no pico do LH), e ele muda de nome: passa a ser o corpo lúteo — folículo roto = corpo lúteo. Na segunda fase ainda há estrogênio (a paciente não fica com fogacho nem ressecamento vaginal), mas a predominância agora é da progesterona, voltada para a gestação. O comando hormonal muda de mãos: da fase de estrogênio (crescer, recrutar) para a fase de progesterona (preparar, sustentar).
A progesterona torna o endométrio secretor
O corpo lúteo produz grande quantidade de progesterona, e é ela que prepara o endométrio e o torna secretor: glândulas maiores, vascularização melhora — o endométrio se arruma para receber a gestação. Esse é o elo direto com o ciclo uterino: o endométrio secretor é a assinatura da fase lútea. Se um embrião chega, o terreno está pronto; se não chega, tudo vai regredir.
A progesterona segue inibindo o FSH (não recrutar mais folículo)
A progesterona continua inibindo o FSH — e a lógica é econômica: não faz sentido recrutar mais folículo, já rompeu um. O corpo está preparando para a gravidez, não selecionando novo folículo. Enquanto a progesterona estiver alta, o recrutamento fica em espera.
Inibina A = after (fecha o par com a B)
Agora a inibina é a inibina A = after — a inibina da segunda fase, que vem depois da ovulação. Fecha o par com a inibina B (before, da fase folicular): B antes, A depois. É o par que a banca troca de propósito; o before/after resolve os dois de uma vez.
A progesterona também inibe o LH (e a semente da contracepção)
A progesterona também inibe o LH: se a progesterona subiu, é sinal de que já ovulou — não há por que gastar LH à toa. E aqui nasce a semente da contracepção: é o efeito da progesterona sistêmica sobre o LH que alguns contraceptivos (à base de progesterona, isolada ou combinada) exploram — além do efeito local, conseguem bloquear o pico de LH e evitar a ovulação. (Nem todos: parte dos contraceptivos com progesterona não faz anovulação — detalhe de outro capítulo.) O que importa aqui é o mecanismo: progesterona alta → LH inibido → sem novo pico.
A fase lútea é FIXA (~14 dias): datar a ovulação e reiniciar
O insight que organiza tudo: a fase lútea é relativamente FIXA (~14 dias); a primeira fase é que varia. O que muda de ciclo para ciclo é o tempo que o folículo demora para crescer, dominar, ficar pré-ovulatório e romper — por isso ciclos de 28, 30 ou 40 dias, inclusive na mesma paciente. A segunda metade é constante. Uso prático de ouro: vendo a paciente no 1º dia da menstruação (= 1º dia do ciclo), conto 14 dias para trás e sei que ela ovulou (para frente é só estimativa, porque a primeira fase varia). E o fechamento da alça: se não houver gravidez, não há hCG para sustentar o corpo lúteo → ele regride → caem estrogênio, progesterona e inibina → para de inibir o FSH → o FSH volta a subir → reinicia o ciclo (descama e recomeça).
A régua dos 14 dias
ciclo de 28 dias · folicular 14d (varia) · lútea 14d (fixa)só a primeira metade estica ou encolhe · conto 14 dias para trás a partir da menstruação = ovulou

Ovário humano normal em corte: a estrutura amarela viva é o corpo lúteo plenamente desenvolvido (fase lútea média), fonte de progesterona. Os corpos brancos são corpora albicantia — corpos lúteos de ciclos anteriores que regrediram. A morfologia real do que a fisiologia constrói depois da ovulação.
Human Ovary with Fully Developed Corpus Luteum, por Ed Uthman, via Wikimedia Commons, licenciada sob CC BY-SA 2.0. Fonte: Wikimedia.
achado macroscópico humano — amarelo = corpo lúteo; branco = corpora albicantia (regressão de ciclos passados)Quiz — fixação
Uma paciente tem ciclos ora de 28, ora de 40 dias. O que explica essa variação?
- B — a virada. A fase lútea é fixa (~14 dias) — o corpo lúteo vive ~14 dias sem hCG; quem varia é a folicular (tempo para o folículo crescer/dominar/romper).
- A. inverte: se a lútea variasse, não daria para datar a ovulação contando 14 dias para trás.
- C. não é simétrico — a constância da lútea é justamente o que permite o cálculo.
- D. a menstruação é um evento do início do ciclo, não o que estica a duração total.
- Por que cair na (A). o aluno imagina que "a segunda metade, mais longa e cheia de progesterona, deve variar" — é o oposto: ela é o relógio fixo.
Vendo a paciente no 1º dia da menstruação, como se estima a data da ovulação?
- B — a virada. Como a lútea é fixa (~14 dias), 14 dias para trás a partir da menstruação = a ovulação (confiável).
- A. para frente é só estimativa — a folicular do próximo ciclo varia.
- C. "14º dia" só vale em ciclo de 28 dias; em ciclo de 40, a ovulação foi por volta do 26º dia.
- D. o cálculo retrospectivo funciona sem dosar LH, justamente por causa da constância da lútea.
- Por que cair na (C). decora-se "ovula no 14º dia" como regra universal, quando o fixo é a segunda metade (14 dias antes da próxima menstruação), não o 14º dia de qualquer ciclo.
Cada hormônio já apareceu no seu momento — FSH, LH, estradiol, progesterona. Empilhados no mesmo eixo do tempo, eles contam a mesma história de um golpe só.