Página 3 · Revisão do ciclo menstrual
A corrida dos folículos: por que só um vence e o FSH cai no caminho
A cada ciclo, uma onda de cerca de mil folículos deixa o repouso do ovário — e a esmagadora maioria morre pelo caminho. Sobra um. E, no meio da corrida, o próprio FSH que os recrutou começa a cair.
O FSH já sobe no fim do ciclo anterior
O FSH começa a subir ainda no FINAL do ciclo anterior — não espera a menstruação terminar para começar. É economia de tempo: já ali, em ascensão, ele inicia o recrutamento folicular da fase que vem. Quando a paciente menstrua, o processo de seleção do ovário já está em marcha.
A onda de ~1000 e a atresia: o que os ~1000 realmente são
Aqui é preciso um cuidado que a banca explora. A cada ciclo, uma onda de cerca de mil folículos deixa o repouso do ovário — e a esmagadora maioria não vai a lugar nenhum: sofre atresia (morre pelo caminho). Esse ~1000 é a ordem de grandeza da onda e da atresia por ciclo — um recrutamento inicial que independe de gonadotrofina —, e não o número que o FSH "estimula". Do que entra na onda, o FSH afina uma coorte pequena — poucos folículos (da ordem de 8 a 20), sensíveis a ele — e, dentro dessa coorte, um assume a dominância. Ou seja: mil entram na onda, poucos respondem ao FSH, um domina e vai romper. O folículo dominante é o que efetivamente vai ovular — por isso a primeira fase, do ponto de vista ovariano, chama-se fase folicular. Guarde a redação exata: o FSH não estimula mil; a onda é de mil, o FSH seleciona poucos.
Os folículos produzem estrogênio (e inibina B)
Sob estímulo do FSH, os folículos em desenvolvimento produzem grande quantidade de estrogênio — e o nome do hormônio já entrega a função: FSH = folículo estimulante, estimula folículo, e o folículo estimulado produz estrogênio. Esse estrogênio faz duas coisas: começa a proliferar de novo o endométrio recém-descamado (na primeira fase a paciente acabou de menstruar, o endométrio está fino) e sinaliza de volta ao eixo. Junto com o estrogênio, os folículos produzem inibina B. E vale a regra que amarra tudo o que vem: se não há aumento de estrogênio, não há ovulação — entender essa produção folicular de estrogênio é o que abre o próximo passo.
O feedback negativo: estrogênio e inibina B sobem, o FSH cai
À medida que o estrogênio e a inibina B sobem, eles sinalizam à hipófise que "está dando certo, pode diminuir o FSH" — e a curva do FSH cai. Faz sentido econômico: FSH muito alto ficaria gastando folículo à toa; uma vez que a seleção está encaminhada, não há por que manter o estímulo no talo. Esse é o feedback negativo da fase folicular — o estrogênio, subindo, freia a própria fonte de estímulo.
Por que o dominante não morre: mais receptores de FSH
Vem a pergunta que a corrida abriu: se o FSH cai, por que justo o dominante não morre com a queda? Porque ele tem mais receptores de FSH. Numa escassez de FSH, quem tem mais receptor capta melhor o pouco que sobrou — e se dá bem. O dominante continua a crescer (até virar o folículo pré-ovulatório) exatamente enquanto os outros regridem e desaparecem. A queda do FSH, longe de atrapalhar, é o filtro que separa o escolhido dos demais.
Inibina B = before ovulation (cuidado para não confundir com a A)
Fixe o mnemônico com cuidado deliberado: inibina B = before ovulation — é a inibina da primeira fase, a que vem antes da ovulação. A ordem é contraintuitiva de propósito: a primeira é a B, a segunda (fase lútea) é a A. O before/after resolve — B antes, A depois. A inibina A entra na fase lútea, mais adiante; aqui, a que acompanha a fase folicular é a B.

Histologia do córtex ovariano com folículos em vários estágios — do primordial ao antral. É a matéria-prima da corrida: de uma onda de muitos, o FSH afina uma coorte pequena e um dominante emerge. A progressão morfológica que a foto mostra é a mesma que a fisiologia seleciona.
Córtex ovariano (histologia) por Tulemo, via Wikimedia Commons, licenciada sob CC BY-SA 4.0. Fonte: Wikimedia.
tecido de primata rhesus (não humano) — a foliculogênese é praticamente idêntica à humana; o foco é a progressão dos estágiosQuiz — fixação
Sobre os "~1000 folículos" por ciclo, é correto afirmar:
- C — a virada. O ~1000 é a onda/atresia por ciclo (recrutamento inicial, gonadotrofina-independente); o FSH afina uma coorte pequena (~8-20), da qual um domina.
- A. a pegadinha exata: o FSH não estimula mil — a onda é de mil, a coorte FSH-dependente é pequena.
- B. só o dominante ovula (um óvulo por ciclo); os demais não ovulam nem são "fecundados".
- D. a reserva total é de centenas de milhares a milhões — não mil.
- Por que cair na (A). a fala corrente encadeia "FSH → mil folículos" e o aluno repete; a precisão é que o FSH seleciona poucos dentro de uma onda que já é de mil.
Com o feedback negativo derrubando o FSH na fase folicular, o folículo dominante continua crescendo porque:
- B — a virada. Mais receptores de FSH = o dominante aproveita melhor o FSH escasso; os demais, com menos receptor, regridem.
- A. a virada para dependência de LH acontece só na ovulação (próximo elo), não durante a queda do FSH folicular.
- C. ao contrário — o dominante segue produzindo estrogênio, que é o que dispara a ovulação.
- D. o feedback derruba o FSH (hipófise), mas quem sobrevive à queda depende de um fator ovariano (nº de receptores).
- Por que cair na (A). confunde-se a mudança de padrão da ovulação (receptores de LH na granulosa) com a sobrevivência do dominante na fase folicular — momentos diferentes.
O estrogênio que move tudo não nasce pronto no folículo: ele vem de androgênio, feito numa camada e convertido em outra — e é preciso de duas células para isso funcionar.