Página 4 · Diagnóstico — GO ≠ clínica geral

Confirmar — e o D-dímero que morre na porta da GO

BônusDoppler de MMIIEdema ≥2 cm (LEFt)Angio-TC / V-QD-dímero fora

Qual é o primeiro exame a pedir — e qual exame da clínica geral você deve esquecer aqui?

A página gira em torno de uma inversão: o exame que na clínica é ouro, na GO é lixo. A pergunta dupla organiza os dois movimentos — o que pedir e o que abandonar — e é a primeira cristalização explícita da lente "GO ≠ clínica geral".

Suspeita clínica e o edema que conta: o assimétrico ≥2 cm

O diagnóstico começa pela suspeita clínica — e ela pesa muito aqui. O problema é o edema: a gestante tem edema fisiológico, e no final da gestação a grande maioria das mulheres tem as pernas inchadas. Edema bilateral, simétrico, é regra e não significa trombose. O que levanta a suspeita de TVP é o edema assimétrico — um lado nitidamente maior que o outro, com pelo menos ~2 cm de diferença de circunferência na perna. Grave esse número no contexto obstétrico: são 2 cm.

Doppler de MMII: o primeiro exame, que resolve a maioria

Confirmada a suspeita, o primeiro exame é o Doppler de membros inferiores (ultrassom com Doppler de MMII). Ele é acessível, não irradia e resolve a imensa maioria dos casos — mostra a veia não compressível e o trombo. Para a TVP de território habitual, o Doppler fecha o diagnóstico.

Compressibilidade Venosa ao Doppler Animação interativa mostrando um corte transversal de veia normal (compressível) e veia com trombose venosa profunda (não compressível) sob pressão do transdutor. DOPPLER VENOSO DE MEMBROS INFERIORES Mecanismo de Compressibilidade: Normal vs. Trombose Venosa Profunda (TVP) VEIA COMPRESSÍVEL (NORMAL) DOPPLER DE MMII (OK) ART VEIA SPECTRAL DOPPLER: FLUXO VENOSO CONTÍNUO US LINEAR VEIA NÃO COMPRESSÍVEL (TVP) TROMBOSE CONFIRMADA ART LÚMEN OBSTRUÍDO VEIA SPECTRAL DOPPLER: AUSÊNCIA DE FLUXO VENOSO US LINEAR COMPRESSÃO: OFF INSTRUÇÕES DE INTERAÇÃO Clique nos elementos (artéria, veia, trombo ou transdutor) para analisar o Doppler. Ligue a compressão para simular o teste clínico.
Veia compressível × não compressível ao DopplerO que o exame efetivamente mostra: a veia normal colaba sob a compressão do transdutor; a veia com trombo não colaba (não compressível) — e é essa perda de compressibilidade que fecha a TVP.Interativo · alterne veia normal × com trombo

O buraco: trombose alta/pélvica com Doppler falso-negativo

Existe uma armadilha topográfica. O útero gravídico aumenta a pressão e a estase dos vasos pélvicos, e a paciente pode fazer uma trombose mais alta — ilíaca, pélvica — que não está no alcance do Doppler de MMII. Nesse cenário o Doppler ajuda menos e pode vir falso-negativo: a perna parece limpa, mas o trombo está acima. Quando o quadro clínico é muito clássico e o Doppler de MMII não esclareceu ou sugere topografia alta, o próximo passo é a angiorressonância ou a angio-TC de pelve, que enxergam o território ilíaco/pélvico.

D-dímero NÃO se aplica na GO

Aqui está a estrela negativa da página. Na clínica geral, o D-dímero é um exame querido pelo seu valor preditivo negativo: se vem baixo, praticamente exclui trombose. Na gestante, esqueça o D-dímero. O motivo é fisiológico: o D-dímero aumenta fisiologicamente na gestação — sobe por conta própria, sem nenhuma trombose. Com ele sempre elevado, você perde exatamente aquilo que o tornava útil: o valor preditivo negativo não se aproveita, porque ele nunca vai estar baixo o suficiente para excluir nada. Não é só para a TVP — vale também na investigação do TEP. E não é opinião: nenhum fluxograma ou protocolo de TEV no ciclo gravídico-puerperal inclui o D-dímero. Ele morre na porta da GO.

NÃO na GO. Sobe fisiologicamente na gestação → perde o valor preditivo negativo → inútil. Nenhum protocolo de TEV gravídico-puerperal o inclui.

A investigação do TEP: descartar o diferencial e fechar com angio-TC ou V/Q

No TEP, a avaliação básica muda de função: ela serve para investigar e descartar outras causas (o diagnóstico diferencial), não para confirmar o TEP. A avaliação inicial inclui gasometria, radiografia de tórax (afastar outras causas de dispneia) e ECG. Um ponto de prova: o ecocardiograma não confirma o diagnóstico de TEP, mas pode mostrar disfunção de ventrículo direito — e isso é critério de pior prognóstico, não critério diagnóstico. Confundir os dois é erro clássico. Para fechar o TEP na gestante, os exames de escolha são a angio-TC de tórax ou a cintilografia pulmonar de ventilação-perfusão (V/Q).

Nó 1 — Suspeita de TVP Dor + edema assimétrico ≥2 cm → pedir o primeiro exame.
↓
Doppler de MMII — resolve a maioria. Positivo → confirma a TVP.
↓ negativo/inconclusivo + clínica clássica ou topografia alta
Angio-RM ou angio-TC de pelve — enxerga o território ilíaco/pélvico (onde o Doppler não alcança).
— — —
Nó 2 — Suspeita de TEP Dispneia súbita + dor pleurítica + hemoptise + taquicardia.
↓
Avaliação básica (gasometria · RX de tórax · ECG) — para descartar diferenciais, não confirmar.
↓
Eco: disfunção de VD = pior prognóstico, NÃO confirma o TEP.
↓
Exame de escolha para fechar: angio-TC de tórax OU cintilografia V/Q.
Ultrassonografia com Doppler colorido de membro inferior mostrando veia femoral preenchida por material ecogênico e sem fluxo — trombose venosa profunda.
Veia não compressível ao Doppler — a 1ª linha que fecha a TVP

A veia trombosada aparece preenchida por material ecogênico e sem fluxo colorido, ao lado da artéria pérvia. O fechamento vem da perda de compressibilidade venosa; o Doppler reforça mostrando a ausência de fluxo.

Wikimedia Commons — Ultrasonography of deep vein thrombosis of the femoral vein (annotated). Licença CC0 / domínio público · fonte

Quiz — fixação

Gestante de 36 semanas, dispneia súbita, suspeita de TEP. Qual conduta está correta?

  • C — exames de escolha. Para fechar o TEP na gestante, angio-TC de tórax ou cintilografia V/Q.
  • A. Erro-mãe da lente GO≠clínica: o D-dímero sobe fisiologicamente, perde o valor preditivo negativo e não exclui nada.
  • B. Confunde prognóstico com diagnóstico: a disfunção de VD indica gravidade/pior prognóstico, nunca confirma o TEP.
  • D. Inverte a função da avaliação básica: RX, gaso e ECG servem para descartar outras causas, não para confirmar.

Sobre o Doppler de MMII na investigação da TVP da gestante:

  • B — o buraco topográfico. O Doppler fecha a maioria, mas não alcança a topografia ilíaca/pélvica alta — daí o falso-negativo e a angio-RM/TC de pelve.
  • A. Excesso de confiança: negativo não exclui a trombose alta que o transdutor não vê.
  • C. Ressuscita o D-dímero, inútil aqui.
  • D. Cria restrição temporal inexistente — o Doppler vale na gestação e no puerpério.
A seguir

Confirmado o evento, a pergunta vira terapêutica: o que anticoagula essa paciente, por quanto tempo, e o que está terminantemente proibido.