Página 7 · Vigilância aguda e cardiotocografia

Parâmetro 4a: as desacelerações ancoradas na contração

3 DIPs + regra de ouroDIP I: coincide e simétricoO mecanismo do DIP IA seta da provaDIP I não exige condutaDIP II: atrasado = asfixiaO mecanismo do DIP II
O batimento afunda…

…e é benigno: não pede nada.

vs
O batimento afunda…

…e é sinal de asfixia: manda tirar o bebê.

Mesma cara — o batimento vai e volta. O que as separa não é a forma do vale. É onde ele cai em relação à contração.

Três tipos de DIP e a regra de ouro da correlação

Existem três tipos de DIP (desaceleração): tipo I (precoce / cefálico), tipo II (tardio) e tipo III (variável / umbilical). E a regra de ouro que abre qualquer leitura de desaceleração: para classificar uma desaceleração, é obrigatório correlacioná-la com a metrossístole — a contração. Sem olhar a contração ao lado, não se classifica DIP. A memória visual aqui é indispensável: reconhecer o padrão do traçado é o cerne da interpretação.

DIP I: coincide e é simétrico

O DIP I (precoce / cefálico) é a desaceleração que coincide com a contração e é simétrica — "vai e volta do mesmo jeito", sempre no mesmo padrão. Todos os DIP I são praticamente iguais entre si: começam quando a contração começa, atingem o fundo quando a contração atinge o pico, e voltam quando a contração passa. Espelham a contração.

O mecanismo do DIP I

O DIP I é um reflexo vagal por compressão do polo cefálico. A mecânica é intuitiva: a contração empurra o feto para baixo, a cabeça é espremida contra o canal vaginal, o vago desacelera o coração; passada a contração, descomprime e o batimento volta ao normal. É pressão na cabeça gerando bradicardia reflexa, sincronizada com a contração.

Mecanismo do DIP I (Desaceleração Precoce) Mecanismo do DIP I (precoce/cefálico): a compressão do polo cefálico gera reflexo vagal e a desaceleração coincide, simétrica, com o pico da contração. DESACELERAÇÃO PRECOCE (DIP I) Mecanismo de compressão cefálica e reflexo vagal sincronizado MECANISMO ANATÔMICO Coração Fetal Polo Cefálico Canal de Parto Canal de Parto Compressão Compressão Nervo Vago Ativo Reflexo Parassimpático REGISTRO CARDIOTACOGRÁFICO (CTG) 180 170 160 150 140 130 120 110 100 FHR (bpm) Frequência Cardíaca Fetal (FCF) Linha de Base: 140 bpm 100 80 60 40 20 0 Contração (mmHg) Atividade Uterina (AU) / Metrossístole 0s 40s 80s 100s (Pico) 120s 160s 200s Tempo (segundos) Alinhamento Coincidente "Seta da Prova" (Nadir = Pico) Reflexo Vagal Seta da Prova Reiniciar
Clique nos botões ou passe o cursor sobre a cabeça fetal ou a seta vertical tracejada para analisar clinicamente a desaceleração precoce.
Título Primeira linha explicativa Segunda linha explicativa
Mecanismo do DIP I (precoce / cefálico)

Interativo: acione a seta e o mecanismo para ver a coincidência vale–pico.

A contração espreme a cabeça no canal → reflexo vagal → a desaceleração coincide, simétrica, com o pico da contração. A seta temporal ligando o fundo do vale à metrossístole é o dispositivo de leitura da prova.

A seta da prova

Um gesto simples que ajuda a laudar na segunda fase: desenhar uma seta ligando o fundo da desaceleração à metrossístole. A seta deixa clara a relação temporal — se o vale da desaceleração alinha com o pico da contração, coincidente, é DIP I. É truque de reconhecimento visual, e vale ouro quando o traçado da prova está apertado.

DIP I não exige conduta

Consequência prática: o DIP I é comum no trabalho de parto avançado, com a cabeça já encaixada, e não exige nenhuma conduta ou medida adicional. É fisiológico do descer da cabeça. Ver DIP I e correr para intervir é erro — ele é o benigno da dupla.

Tracado de cardiotocografia com DIP I: desaceleracao simetrica cujo vale coincide com o pico da contracao.
Traçado real — DIP I (vale coincide com o pico)

O DIP I didático isolado, com a seta temporal em destaque: a desaceleração acompanha a contração como imagem espelhada.

No canal superior, a FCF cai de uma basal ~140 bpm e atinge o nadir no mesmo eixo temporal do pico da contração (canal inferior). Esse alinhamento vale–pico é o achado do DIP I, com recuperação conforme a contração relaxa. Diferencie do DIP II (nadir depois do pico) e da variável (abrupta, em V/W, relação temporal instável).

Fonte: Piazze J et al., J Pregnancy Reprod 2018, Fig. 2, via OAText — Creative Commons Attribution (seta em overlay) · página de origem

DIP II: vem atrasado = asfixia

O DIP II (tardio) é a desaceleração que vem após a contração. E o significado é pesado: significa que o feto não tem reserva e não tolera a metrossístole — é sinal de asfixia. Diante de DIP II tardio, sobretudo de repetição, a conduta é tirar o bebê: a contração já passou e o feto continua a afundar, mostrando ausência de reserva. O atraso é a assinatura da insuficiência: o feto só afunda depois que a contração termina porque demorou a sentir a falta de oxigênio.

O mecanismo do DIP II

A mecânica do DIP II está na placenta. A contração uterina comprime os vasos que levam sangue à placenta e reduz o fluxo. O feto com reserva normal aguenta 40, 50, 60 segundos de contração sem se abalar. O feto sem reserva trabalha no limite e afunda tardiamente a cada redução de fluxo — a queda vem atrasada porque a reserva se esgota só depois de a contração ter comprimido os vasos por tempo demais. Contraste visual que fecha a dupla: no DIP I o vale coincide com o pico da contração; no DIP II o vale vem depois do pico.

DIP II vs DIP I: Fisiopatologia e Diagnóstico Mecanismos de desaceleração e a assinatura da insuficiência uteroplacentária DIP I (Precoce / Vagal) DIP II (Tardio / Hipóxico) MECANISMO FISIOPATOLÓGICO Canal de Parto / Colo Uterino Compressão Craniana Fluxo Placentário PRESERVADO REFLEXO FISIOLÓGICO Desaceleração Precoce (DIP I) Gatilho: Compressão da calota craniana fetal no canal de parto. Mecanismo: Estímulo barorreceptor -> Reflexo vagal (n. vago). Sincronismo: Nadir da desaceleração espelha o pico da contração. Clínica: Benigno, sem relação com hipóxia ou acidose fetal. FLUXO BLOQUEADO Asfixia / Hipóxia Tecidual pO₂ < 18 mmHg ? ? SOFRIMENTO FETAL Desaceleração Tardia (DIP II) Gatilho: Contração esmaga os vasos placentários. Fisiopatologia: Esgotamento da reserva de O₂ fetal (30-60s). Assinatura: Desaceleração atinge o nadir após o pico. Risco: Hipóxia, acidose metabólica severa e asfixia perinatal. TRAÇADO CARDIOTOCOGRÁFICO (CTG) 1 min 2 min 3 min 4 min 5 min 180 160 140 120 100 BCF (bpm) 100 50 0 UC (mmHg) PICO DA CONTRAÇÃO COINCIDÊNCIA: Sem Atraso ? ATRASO Δt ≈ 40s Reserva Fetal (~40s) ?
Mecanismo do DIP II (tardio)

Interativo: alterne o mecanismo e veja o vale atrasado em relação ao pico.

A contração comprime os vasos placentários → o feto sem reserva afunda tardiamente, com o vale após o pico. O atraso é a assinatura da insuficiência uteroplacentária — contraste direto com o DIP I, que coincide.
Tracado de cardiotocografia com DIP II: desaceleracao tardia cujo vale ocorre apos o pico da contracao.
Traçado real — DIP II (vale após o pico)

O reconhecimento do DIP II tardio (asfixia): a queda da FCF vem atrasada em relação à contração.

No painel (a), a contração sobe primeiro, atinge o pico, e só depois aparece o vale da desaceleração (seta). Esse atraso caracteriza a desaceleração tardia, associada à redução da troca uteroplacentária. Diferencie do DIP I (vale espelha o pico) e da variável (abrupta, em V/W).

Fonte: Yamano K et al., Cureus 2024, Fig. 1 — CC BY 4.0 · página de origem

DIP I × DIP II — o timing decide tudo
DIP I (precoce)DIP II (tardio)
TimingCoincide com o picoApós a contração
CausaCompressão do polo cefálico / reflexo vagalCompressão de vasos placentários / sem reserva
FormaSimétrico, sempre igualTardio
SignificadoBenignoAsfixia
CondutaNenhumaTirar o bebê (sobretudo de repetição)

Quiz — fixação

Num traçado, cada desaceleração começa junto com a contração, atinge o fundo no pico da contração e retorna quando ela termina, de forma simétrica e repetida. Classificação, mecanismo e conduta?

  • B) Correta. Vale coincidindo com o pico + simetria repetida = DIP I (precoce/cefálico), reflexo vagal, benigno, sem conduta — típico do TP avançado com cabeça encaixada.
  • A) Levaria a intervenção desnecessária. DIP II é tardio (vale após o pico); aqui coincide — qualquer "afundada" assusta se você não olha o timing.
  • C) A descrição não bate. DIP III é variável e ligado a cordão, não simétrico e sincronizado.
  • D) Distrator grosseiro de atenção ao sentido da curva. Aceleração sobe o batimento; aqui ele afunda.

O DIP II (tardio) indica asfixia porque:

  • B) Correta. Insuficiência uteroplacentária: a contração reduz o fluxo, e o feto sem reserva afunda depois do pico — o atraso é a marca da falta de reserva.
  • A) Troca o mecanismo entre os dois DIPs. Esse é o mecanismo do DIP I (cefálico/vagal), benigno — não do DIP II.
  • C) Mistura o terceiro DIP na dupla. Compressão variável de cordão é o DIP III; o DIP II é placentário e tardio-fixo.
  • D) Distrator de outro parâmetro. Descreve taquicardia (linha de base), não uma desaceleração.
O fio para a próxima página

Falta o DIP que não se ancora na contração — o que muda de forma, engana em pedaços do traçado, e concentra as piores pegadinhas da prova.

Sobe a escada; a medida heroica é o último degrau, e o relógio conta.