Página 6 · Vigilância aguda e cardiotocografia
Parâmetro 3: as acelerações (e a assimetria da banca)
"A aceleração acelera o nosso coração."
"A aceleração acelera o nosso coração." A frase é boba de propósito, e por isso gruda: quando aparece aceleração no traçado, o coração de quem interpreta se acalma. A aceleração é o parâmetro mais tranquilizador do exame — e a página explica por que, e onde está a armadilha lógica que a banca monta em cima dela.
"A aceleração acelera o nosso coração"
A aceleração só aparece em feto com boa oxigenação — só acelera feto que está bem. E há um corolário que vale a prova: é o primeiro parâmetro a desaparecer diante de uma hipóxia. Some antes dos demais parâmetros. Por isso a presença de aceleração é extremamente tranquilizadora: um feto que acelera está, quase por definição, bem oxigenado naquele momento.
O que conta como aceleração
Em feto maduro (a termo), aceleração é um aumento de pelo menos 15 bpm durando pelo menos 15 segundos, com retorno à linha de base. O retorno é essencial: se o batimento sobe e não volta, isso não é aceleração — é mudança da linha de base para cima, o que viraria taquicardia. Aceleração é transitória por definição: sobe, dura ≥15 s, e desce de volta.
Quando encerrar: o traçado reativo
Duas acelerações em 10 minutos permitem encerrar a cardiotocografia — é altamente favorável, indício de boa oxigenação. Na prática, duas acelerações em 20 minutos também autorizam encerrar (não é preciso chegar aos 40 min). Sem as duas acelerações e com variabilidade ruim, estica-se o exame até 40 minutos.
Esse "2 acelerações → pode encerrar" tem nome de banca: traçado REATIVO. O corte formal é ≥2 acelerações em 20 minutos (a termo, ≥15 bpm × ≥15 s). O oposto, NÃO-REATIVO, é a ausência desse padrão em 40 min → estende-se o exame e/ou parte-se para complementação (perfil biofísico / Doppler). O rótulo "reativo/não-reativo" não foi verbalizado na fonte — entra como enriquecimento nomeado.
Interativo: alterne termo × prematuro para ver o ajuste do critério.
O toggle troca o critério sobre o mesmo eixo: a termo, +15 bpm × ≥15 s com retorno à basal; no prematuro (<32 sem), a amplitude cai para ≥10 bpm por imaturidade do autônomo. A duração do prematuro está sob a decisão PVE-1 (placeholder de dois valores).O padrão 10×10 do prematuro
No prematuro (abaixo de 32 / 30 semanas), os parâmetros mudam um pouco — a cardiotocografia do prematuro não é proibida, mas se ajusta. A aceleração passa a ser um aumento de pelo menos 10 bpm (em vez de 15). A amplitude cai porque o autônomo do prematuro é mais imaturo.
A amplitude do critério do prematuro (<32 sem) é confirmada em ≥10 bpm. A duração é o ponto sob revisão editorial — renderizados os dois valores, sem escolher em silêncio:
Recomendação do Didata: fixar 10 segundos (fidelidade clínica), mantendo a nota do lapso como pegadinha de banca. Decisão final é do Bauer.
A assimetria lógica
Aqui está o ouro da página, a assimetria lógica que a banca ama: a presença de aceleração fala contra a asfixia, mas a ausência NÃO significa asfixia. Não é simétrico. Ter aceleração praticamente exclui algo patológico; não ter aceleração não confirma nada — apenas obriga a olhar os outros parâmetros: variabilidade, linha de base e desacelerações. Um feto pode não acelerar por estar em sono, e não por estar asfixiando.
Não insistir por dias
Consequência prática do ponto anterior, e erro comum desmontado: não se deve insistir na cardiotocografia por dias até obter uma aceleração. A ausência de aceleração não é, por si só, patológica, enquanto a presença praticamente exclui o patológico. Manter a paciente três dias grudada no aparelho esperando uma aceleração é ansiedade, não medicina — avaliam-se os outros parâmetros e segue-se.

O reconhecimento da aceleração e do feto bem oxigenado: aumentos transitórios da FCF (≥15 bpm × ≥15 s) que sobem e voltam à basal.
Na faixa superior (A), a FCF oscila em torno de uma basal ~120–135 bpm e apresenta elevações transitórias — sobretudo no terço esquerdo, no centro e no terço direito. Cada pico sobe abruptamente e retorna à basal (o retorno é definidor). Diferencie de "ombros" de desaceleração variável e de captação materna: nesses, o pico está colado a contrações/desacelerações ou não retorna a uma basal fetal estável.
Fonte: Phantom Steve, Wikimedia Commons — CC BY-SA 3.0 (re-anotado: eventos de aceleração isolados) · página de origem
Quiz — fixação
Um traçado a termo não apresenta acelerações em 20 minutos, mas tem variabilidade moderada e linha de base normal, sem desacelerações. A leitura correta é:
- B) Correta. A assimetria lógica: ausência não confirma nada. Com variabilidade e linha de base normais e sem desacelerações, o conjunto tranquiliza.
- A) Simetriza a lógica, que é assimétrica. Presença exclui, ausência não confirma — é o reflexo intuitivo (e errado) de inverter a regra.
- C) Superdimensiona a ausência de um único parâmetro. Não há critério para cesárea: os demais parâmetros estão normais.
- D) É o erro comum desmontado. Insistir por dias parece "caprichar na vigilância", mas a ausência não é patológica por si.
Sobre o critério de aceleração e o traçado reativo, assinale a correta:
- A) Correta. 15×15 com retorno à basal; reativo = ≥2 acelerações em 20 min (ENR-1). É o pacote correto.
- B) Ignora o "transitório" da definição. Subir e não voltar é mudança de linha de base (rumo à taquicardia), não aceleração; o retorno é definidor.
- C) Junta dois conceitos que se excluem. Reativo é sinal bom (acelerações presentes); perda de variabilidade é achado ruim, oposto.
- D) Inverte o sentido do ajuste do prematuro. No prematuro a amplitude cai para ≥10 bpm (mais imaturo), não sobe para 20.
Falta o quarto e mais visual dos parâmetros — o que afunda o batimento. E o primeiro passo para lê-lo é relacioná-lo com a contração: coincide ou vem atrasado?