Página 7 · O padrão-ouro que não é universal

Urodinâmica: quem precisa — e os três tempos

GinecologiaNão é para todo mundoIncontinência oculta3 temposResíduo < 50 ml

Se o diagnóstico é clínico, quando vale a pena esse exame que incomoda tanto?

Padrão-ouro que não é para todo mundo (urodinâmica ou vídeo-urodinâmica)

A urodinâmica — que na prova aparece com dois nomes, urodinâmica ou vídeo-urodinâmica (mesmo exame, mesmo padrão-ouro) — é o padrão-ouro, mas não é para todo mundo. O tratamento inicial é clínico: se a queixa, a anamnese e o exame físico já indicam o diagnóstico, começa-se o tratamento (que é clínico) sem urodinâmica. Quando a clínica já mostra a perda — a paciente com incontinência de esforço que perde na sua frente ao tossir, com bexiga cheia —, não precisa de urodinâmica: pode-se tratar direto. Guarde os dois nomes: a banca troca um pelo outro para ver se você sabe que é o mesmo exame.

As indicações: não viu a perda · falha do clínico · antes de operar IUE · antes de prolapso grande

A urodinâmica se indica em quatro situações. (a) Incontinência de esforço que não perde durante o exame físico — você não viu a perda e precisa documentá-la. (b) Falha do tratamento clínico — a paciente não respondeu e não se entende por quê. (c) Antes de operar uma incontinência de esforço. (d) Antes de operar um prolapso grande. As duas primeiras resolvem dúvida diagnóstica; as duas últimas protegem a decisão cirúrgica.

A incontinência oculta: o prolapso que mascara a incontinência

A quarta indicação merece parágrafo próprio porque é pegadinha fina e ponte para a discussão de distopia. Um prolapso grande (uma cistocele ou um prolapso uterino grande) que envolve a parede vaginal anterior pode gerar uma obstrução infravesical — a bexiga desce tanto que obstrui a própria saída, e a paciente que tinha incontinência passa a ter até dificuldade para urinar. Ao corrigir o prolapso, a incontinência que estava mascarada “aparece”, e a paciente culpa a cirurgia. Por isso: urodinâmica ANTES de operar o prolapso grande — para saber se ela já não tinha a incontinência oculta antes. (Some-se que a própria cirurgia pode desencadear incontinência ao mexer no assoalho / na teoria integral da continência.) Esta é a incontinência oculta, e ela é o gancho para a discussão de distopia.

Equipamento de uroflowmetria: funil coletor sobre recipiente apoiado numa balança eletrônica (fluxômetro) do estudo urodinâmico.
Equipamento do estudo urodinâmico (uroflowmetria)

O funil, o recipiente e a balança eletrônica compõem o fluxômetro do primeiro tempo — a urofluxometria. O setup completo acrescenta ainda a sonda vesical e o cateter retal das fases seguintes.

Benreis. Uroflowmeter 2023. Via Wikimedia Commons, sob CC BY-SA 4.0.

real de equipamento (uroflowmetria) — parte do setup

Tempo 1 — urofluxometria (esvaziamento; pouco relevante na incontinência)

O exame tem vários elementos, mas os três que interessam à prova são urofluxometria, cistometria e estudo miccional. O primeiro é a urofluxometria, que avalia a fase de esvaziamento vesical, no início do exame. A paciente entra com a bexiga cheia, senta numa cadeira em posição semi-sentada (não é a posição ginecológica) e urina num funil que tem, na ponta, um transdutor (o fluxômetro). Mede-se quantidade de urina, tempo e fluxo. Não há sonda nessa fase. Na incontinência ela é pouco relevante — importa mais na avaliação neurológica ou no homem com jato fraco/obstrução.

Tempo 2 — cistometria (enchimento; o que NÃO pode acontecer nesta fase)

O segundo tempo é a cistometria, a fase de enchimento. Depois de esvaziar, sonda-se a bexiga (sonda vesical) e coloca-se um cateter retal. Enche-se a bexiga aos poucos, com cuidado para o soro não ficar muito frio — soro muito frio geraria contração do detrusor e falsearia o exame. Durante o enchimento, observa-se se o detrusor contrai, se há dor e se há perda; conversa-se com a paciente, pede-se que tussa (manobra provocativa) e, se perder, registra-se em que pressão. Marca-se o primeiro desejo de urinar e o desejo incontrolável (quando ela não aguenta mais) — e aí para-se o exame. A pegadinha da fase: no enchimento, a bexiga não pode perder urina, ainda que a paciente tenha muita vontade — não se espera perda, não se espera dor e não se espera o detrusor contraindo. Motivo: na fase de enchimento a bexiga não deveria contrair (é na fase de esvaziamento que ela contrai).

Tempo 3 — estudo miccional (esvaziamento provocado; resíduo normal < 50 ml)

O terceiro tempo é o estudo miccional (também chamado estudo de fluxo-pressão): quando a paciente chegou ao máximo que aguentou, pede-se que urine. Aqui o detrusor DEVE contrair — é a fase em que ele deveria contrair. E avalia-se o volume residual: o normal é menor que 50 ml. Se ficar mais de 50 ml, há dificuldade de esvaziar a bexiga. Fecha assim a sequência: enchimento em que nada acontece, esvaziamento em que o detrusor trabalha e a bexiga se esvazia deixando quase nada.

Tempo 1
Urofluxometria

Esvaziamento; senta no funil (semi-sentada); mede quantidade, tempo e fluxo. Sem sonda — pouco relevante na incontinência.

Tempo 2
Cistometria

Enchimento; sonda vesical + cateter retal; observa detrusor, dor e perda; marca 1º desejo e desejo incontrolável.

nesta fase NÃO pode perder / dor / detrusor
Tempo 3
Estudo miccional

Esvaziamento provocado; o detrusor DEVE contrair; avalia-se o resíduo.

resíduo normal < 50 ml
Urodinâmica: Setup do Exame e Instrumentação A urofluxometria é realizada sem cateteres. A cistometria e o estudo miccional exigem dupla via para o cálculo correto da pressão do detrusor. ETAPAS DO EXAME 1. Urofluxometria (Fluxo Livre) 2. Cistometria (Enchimento Vesical) 3. Estudo Miccional (Fluxo-Pressão) Etapa 1: Urofluxometria OBJETIVO CLÍNICO Medir a velocidade e a regularidade do jato miccional espontâneo. MÉTODO E INSTRUMENTAÇÃO • A paciente urina de forma livre em uma cadeira especial. • Coletor conectado a um fluxômetro de alta precisão. • Importante: SEM SONDA ou cateteres no corpo nesta fase. PARAMETRO DE REFERÊNCIA • Fluxo Máximo (Qmax): > 15 mL/s (Normalidade) • Curva do fluxo contínua e em formato de sino. Etapa 2: Cistometria OBJETIVO CLÍNICO Avaliar a capacidade, complacência e sensibilidade vesical. MÉTODO E DUPLO ACESSO 1. Sonda Vesical (Uretra): Infunde soro e mede Pves. 2. Cateter Retal (Reto): Mede a pressão abdominal (Pabd). • Pressão do Detrusor: Pdet = Pves − Pabd REGRA DE OURO ("NADA PODE ACONTECER") • Detrusor deve ficar inativo (sem contrações involuntárias). • Ausência de perda involuntária de urina ou dor. Etapa 3: Estudo Miccional OBJETIVO CLÍNICO Analisar a coordenação entre detrusor e esfíncter durante micção. MÉTODO E ATIVIDADE • A paciente urina com os cateteres de medição instalados. • O detrusor contrai ativamente (aumento de Pdet). • Detecta obstruções mecânicas ou hipocontratilidade detrusora. RESÍDUO PÓS-MICCIONAL (CRÍTICO) • Volume normal esperado na bexiga: < 50 mL. • Retenções maiores indicam disfunção miccional ou obstrução. Instrumento Afaste o cursor do hotspot para fechar Osso Púbico SEM CATETER NO CORPO 1º Desejo (~150-200 mL) Capacidade Máxima (~400-500 mL) ENCHIMENTO PASSIVO (Estabilidade) Resíduo Vesical Normal < 50 mL CONTRAÇÃO ATIVA DO DETRUSOR 16.8 mL/s (Qmax) NaCl 0.9% ENCHIMENTO Pdet: OK ESTUDO MICCIONAL Pdet ▲ Via Vesical (Enchimento/Pves) Via Retal (Pabd / Cálculo de Pdet) Limiar Clínico / Alertas Legenda: A avaliação pressórica simultânea vesical e retal permite isolar a atividade real do detrusor.
O setup por faseOnde entram os cateteres e o que cada fase mede: urofluxometria (funil + fluxômetro, sem sonda) → cistometria (sonda vesical + cateter retal, enchimento) → estudo miccional (esvaziamento provocado).Esquema · procedimento por tempo

Quiz — fixação

Paciente com prolapso uterino grande e queixa de dificuldade para urinar será submetida a cirurgia corretora. Por que solicitar urodinâmica antes?

  • B — a virada. O prolapso grande obstrui a saída e esconde a incontinência; ao corrigi-lo, ela se revela — a urodinâmica pré-operatória documenta a oculta antes.
  • A. O estadiamento do prolapso é clínico (exame/POP-Q), não função da urodinâmica.
  • C. A urodinâmica não é de rotina — é para o prolapso GRANDE (e as outras três indicações); universalizá-la contraria “não é para todo mundo”.
  • D. Não é medida de pressão arterial; a “pressão” da urodinâmica é a intravesical/abdominal.

Durante a cistometria (fase de enchimento), qual achado é ESPERADO como normal?

  • C — a virada. No enchimento a bexiga armazena passivamente — não perde, não dói e não contrai; contração aqui é anormal (hiperatividade detrusora).
  • A. Perder no enchimento, mesmo com muita vontade, é justamente o que NÃO pode ocorrer — é achado patológico.
  • B. O detrusor deve contrair no ESVAZIAMENTO (tempo 3), não no enchimento — inverter as fases é o erro.
  • D. O resíduo se avalia no estudo miccional, e > 50 ml é anormal — não um achado esperado do enchimento.
A seguir

Feito o exame, resta a competência que a banca mais cobra: ler o traçado e descobrir quem, afinal, fez a força.