Página 4 · Diferencial — a perda que está sempre ali

Fístula: quando ela nem sabe que é urina

GinecologiaPerda contínuaVésico × ureteroTeste do coranteWertheim
Caso-tipo · o arquétipo diagnóstico

Ela trata “corrimento” há meses, muda de sabonete, faz creme vaginal — e nada resolve. Um dia diz a frase que denuncia tudo: “é um corrimento, mas com cheiro de urina.”

Perda contínua pela vagina que a paciente confunde com corrimento

A fístula é a perda contínua pela vagina — e a armadilha é que a paciente nem sabe que é urina. Ela acha que é corrimento e já se tratou várias vezes por isso, sem sucesso. Às vezes é ela própria quem dá a pista: “é um corrimento, mas com cheiro de urina”. Perda que não tem ritmo de urgência nem de esforço, está sempre ali, molhando — e resiste a todo tratamento de corrimento. Essa frase e essa história devem acender o alerta.

Os dois tipos: vésico-vaginal × uretero-vaginal

A fístula comunica o trato urinário à vagina de dois jeitos. A fístula vésico-vaginal liga a bexiga à vagina; a fístula uretero-vaginal liga o ureter à vagina. Distinguir os dois não é academicismo — muda o exame que localiza e a programação do reparo.

A história que denuncia: cirurgia pélvica (Wertheim), parto complicado, radioterapia

Três histórias denunciam a fístula. A primeira e clássica é a cirurgia pélvica prévia — o exemplo típico é a cirurgia de Wertheim (do câncer de colo), em que se disseca o ureter, aumentando o risco de fístula. A segunda é o parto complicado/distócico — um fórceps difícil, por exemplo, que pode gerar uma fístula, às vezes vésico-vaginal. A terceira é a radioterapia, que altera a consistência do tecido e pode abrir uma fístula. Diante de perda contínua pela vagina, procure ativamente esses antecedentes.

Cistoscopia localiza a vesical; urografia localiza a ureteral

Para descobrir se a fístula é da bexiga ou do ureter, há dois exames. Na cistoscopia, entra-se com a câmera pela bexiga: se a fístula for vésico-vaginal, visualiza-se o trajeto fistuloso — e isso é essencial para programar o tratamento (tamanho da fístula, há quanto tempo existe, se é mais alta/perto do ureter ou mais baixa). Se a fístula for ureteral, a câmera entra e não vê nada na bexiga — quem mostra é a urografia, que evidencia a urina saindo pelo ureter. Resumo de bolso: cistoscopia define a vesical; urografia define a ureteral.

Visão intravesical por cistoscopia com setas indicando o pequeno orifício vesical de uma fístula vésico-vaginal, sem massa vegetante.
Cistoscopia de fístula vésico-vaginal — o orifício fistuloso

As setas marcam o orifício vesical da fístula: um defeito mucoso focal, um óstio patente — sem massa sólida, vegetante ou franjada. É o achado que se aprende a reconhecer, distinto da lesão tumoral.

Akkoç A et al. Figure 1, Journal of Endourology Case Reports 2018;4:94–96. Sob CC BY 4.0.

O teste prático do corante + tampão

Há um teste à beira do leito que resolve muita dúvida. Sonda-se a paciente e injeta-se um corante dentro da bexiga; coloca-se um tampão na vagina. Depois se lê o tampão: se ele umidece E cora (mesma cor do corante), a fístula é vésico-vaginal — o corante que estava na bexiga chegou à vagina. Se o tampão umidece mas não cora, a fístula é mais alta, ureteral — o corante ficou na bexiga e não chegou ali; a urina que molha o tampão vem do ureter, sem passar pelo corante. Corou, é vesical; molhou sem corar, é ureteral.

Fístula recente e pequena pode fechar com sonda; grande ou crônica, cirurgia

O tratamento depende do tamanho e do tempo. Uma fístula recente e pequena, diagnosticada logo, pode fechar sozinha se a paciente ficar sondada por tempo prolongado — a derivação contínua da urina dá chance à cicatrização. Uma fístula grande ou já crônica exige abordagem cirúrgica. Diagnóstico precoce, portanto, também é oportunidade terapêutica.

FÍSTULAS DO TRATO URINÁRIO FEMININO Se o tampão corar de azul, a fístula é vesical (baixa). Se molhar de urina clara sem corar, a fístula é ureteral (alta). Bexiga (Corante Azul) Canal Vaginal Tampão Vaginal Uretra Ureter (Urina clara) Fístula Uretero-Vaginal Alta (Ureter ↔ Vagina) Fístula Vésico-Vaginal Baixa (Bexiga ↔ Vagina) Cistoscopia localiza Urografia localiza PAINEL DE ANÁLISE CLÍNICA Clique nos botões ou nas fístulas para simular Fístula Vésico-Vaginal (Baixa) Fístula Uretero-Vaginal (Alta) TESTE DO CORANTE: POSITIVO O azul de metileno infundido na bexiga vaza pela fístula e CORA O TAMPÃO (AZUL). DIAGNÓSTICO & CONDUTA Exame principal: Cistoscopia (vê orifício). Conservador: Sonda vesical de demora (fecha espontaneamente se recente/pequena). Fístula crônica/larga exige correção cirúrgica. TESTE DO CORANTE: NEGATIVO A urina clara drena do rim direto na vagina. O tampão MOLHA, MAS NÃO CORA de azul. DIAGNÓSTICO & CONDUTA Exame de escolha: Urografia Excretora / Uro-TC. Bexiga íntegra. Cistoscopia não localiza. Tratamento cirúrgico: Reimplante Ureteral (Ureterocistostomia) na bexiga. GATILHOS ETIOLÓGICOS COMUNS • Perda contínua após parto distócico/obstruído • Dissecção ureteral em cirurgia pélvica (Wertheim) / RT
Vésico-vaginal × uretero-vaginal + a lógica do coranteOnde cada fístula comunica — bexiga↔vagina × ureter↔vagina — e a leitura do teste desenhada: bexiga corada → tampão cora (vesical); ureter não passa pelo corante → tampão molha sem corar (ureteral).Esquema · classificação e teste do corante

Quiz — fixação

Mulher de 48 anos, submetida há 3 meses a cirurgia de Wertheim por câncer de colo, queixa-se de perda vaginal contínua “com cheiro de urina”, já tratada como corrimento sem melhora. Na cistoscopia, não se visualiza trajeto na bexiga. O exame que localiza a fístula e o tipo mais provável são:

  • B — a virada. Cistoscopia “limpa” (sem trajeto na bexiga) + dissecção do ureter (Wertheim) aponta para o ureter — e quem mostra a urina saindo pelo ureter é a urografia.
  • A. Repetir a cistoscopia que já não viu nada só confirma que não é vesical — não localiza a ureteral.
  • C. O tampão que cora indicaria vésico-vaginal, o oposto do que a cistoscopia negativa sugere; aqui o tampão molharia SEM corar.
  • D. A ultrassonografia não é o exame que localiza o trajeto fistuloso ureteral — a urografia é.

No teste do corante para investigação de fístula, injeta-se corante na bexiga e coloca-se tampão vaginal. Se o tampão umidece mas NÃO cora, conclui-se:

  • C — a virada. Molhou = há urina chegando à vagina; não corou = essa urina não veio da bexiga corada, veio de cima (ureter).
  • A. Ignora que o tampão umedeceu — há perda urinária; o teste é positivo para fístula, só não a vesical.
  • B. Exigiria o tampão CORADO — como não corou, a vésico-vaginal está descartada; confunde “molhou” com “corou”.
  • D. Também exigiria corante alcançando a vagina; sem coração, não é vesical de calibre nenhum.
A seguir

Da perda que está sempre presente, passa-se ao seu espelho invertido: a bexiga que fica longos períodos sem perder nada — até transbordar.